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M. Eugénia Prata Pinheiro

quinta-feira, agosto 07, 2008

Os alunos faltam às aulas...

A propósito de um texto sobre as faltas de uma aluna que li no blogue Avaliação dos professores, do professor Ramiro Marques, apeteceu-me publicar este texto que escrevi no início dos anos noventa mas que me parece actual.


R O S Á L I A


Rapariga já crescidota com umas repetências às costas. Olhos bonitos de desafio, mãos fáceis de levar à anca. Matriculava-se todos os anos para ver como paravam as modas. Logo nos primeiros dias de aulas apareceram disseminadas pelo livro de ponto umas quantas faltas da Rosália. No fim da hora de Português tinha que discutir com ela o assunto faltas. Tratei de a preparar fazendo-a ter grande êxito, aplaudindo e brincando com a sua boa capacidade de resposta. Os olhos riam-se-lhe.

No fim da aula pedi-lhe explicações para as faltas. De Matemática não gostava nem percebia nada. A História, não lhe apetecera ir. De manhã, adormecera... Que fosse buscar a caderneta e escrevesse aquelas justificações. Foi e ao pé de mim começou a preencher os quadradinhos: a aluna ... nos dias tantos de tal faltou às aulas de Matemática por motivo de não gostar nem perceber nada;... faltou à aula de História por motivo de não lhe apetecer; ...faltou às aulas de Educação Visual e Educação Física por motivo de ter adormecido. Que assinasse, disse-lhe eu. "Pelo meu pai?", perguntou ela. Hom'essa, agora pelo pai! Então não fora ela que faltara por falta de gosto, de apetite e sono a mais? Que assinasse por ela. Assinou ufana.

Depois expliquei-lhe que já percebera que ela tinha alguma necessidade de faltar porque não aguentava aquela coisa monótona de vir todos os dias para a escola mas, paciência, já esgotara as faltas que eu admitia por razões daquelas para dois meses. Até Dezembro nem mais uma falta, a não ser que adoecesse gravemente. Para de manhã que arranjasse um despertador, se não tivesse eu lho daria. Que não era preciso, havia lá em casa. De Matemática, fiz o elogio da matéria e que pusesse francamente todas as dúvidas à professora que as duas arranjariam modos de as resolver. E que em Dezembro me falasse para combinarmos os dias em que poderia faltar. Primeiro a cara abriu-se-lhe de espanto, depois foi sorriso de orelha a orelha e olhos a brilhar.

Não falou mais em faltas nem faltou. No último período dei-lhe de presente por ter tido "Muito Bom" num teste de Matemática, um dia para faltar. Não aproveitou que já não precisava. Quando toda contente me viera mostrar o dito teste, a risota fôra imensa porque o pai se recusara a assinar-lho por não acreditar naquela habilidade.

A Rosália mudou de escola no 7º ano. Às vezes cruzamo-nos no caminho, eu de carro e ela a pé ou sentada na borda do passeio, à espera do autocarro que há-de vir, e acenamos alegres. Nunca mais reprovou. Vai agora para o 9º ano.

Quando numa reunião de Directores de Turma, face às queixas contra os faltosos, contei esta estratégia das combinações, a gargalhada foi geral. Não era para rir.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Anti-racismo


Um país quase imaculado
04.08.2008, Rui Tavares, no Público

Nunca tive ilusões sobre isto: a discussão sobre quais são os povos mais ou menos racistas é no mínimo um equívoco, e nos casos extremos tão preconceituosa como o racismo. Franceses e ingleses acusam-se mutuamente de racismo. No Brasil, crê-se que há muito racismo nos EUA, mas evita-se comparar a realidade dos negros em ambos os países. E Portugal, evidentemente, considera-se naturalmente não-racista: seremos talvez uma raça superior a quem falta o gene do preconceito?

Esta discussão pueril esquece duas coisas. A primeira, que o racismo pode andar na cultura e na sociedade, mas cabe ao indivíduo não ser racista. Não é coisa de povos; é responsabilidade de cada um. A segunda, que a coisa não é estática: uma comunidade profundamente racista pode deixar de sê-lo se indivíduos suficientes se forem levantando contra o racismo. Para que isso aconteça, ser não-racista é insuficiente; é mesmo preciso ser anti-racista.

Também nunca tive ilusões sobre outra coisa: em Portugal, a comunidade que é vista com mais preconceito, há mais tempo e de forma mais consistente, é a dos ciganos.

O preconceito anticigano agarra-se a tudo e pode fugir ao controlo. Uma sondagem no Expresso dá os ciganos como a comunidade mais detestada no país. No mesmo jornal, Miguel Sousa Tavares prega um sermão aos líderes da comunidade para que abandonem uma vida de crime e tráfico de droga. E claro: Paulo Portas logo veio sugerir que há um Portugal que trabalha para que os ciganos vivam do rendimento mínimo.

Neste país onde os bancos "arredondaram" os empréstimos à habitação e meteram ao bolso uma média de cinco mil euros por família, os ciganos são ladrões. Neste país onde a Operação Furacão encontrou fraude empresarial de grande escala mas não chegará a lado nenhum, os ciganos é que são os dissimulados. Neste país onde Paulo Portas ainda não explicou quem é o famoso Jacinto Leite Capelo Rego que generosamente deu dinheiro ao seu partido (nem explicou o "caso sobreiros", nem o "caso submarinos", nem o "caso casino"), os ciganos é que são os malandros.

Ainda se vai descobrir que os ciganos é que raptaram Maddie ou atrapalharam as brilhantes investigações policiais. Ainda se vai descobrir que, afinal, os ciganos estão por detrás do escândalo Casa Pia. Ainda se vai descobrir que são os ciganos quem monta as empresas manhosas onde os nossos jovens licenciados trabalham a recibos verdes. Ainda se vai descobrir que os ciganos é que estacionam os nossos carros em cima dos passeios.

Mas, até lá, tenhamos sentido das proporções. Ou então chegaremos ao ponto a que agora chegou a Itália. Em Itália, todos os ciganos e apenas os ciganos (estrangeiros ou italianos, menores ou adultos, meros suspeitos ou completamente inocentes) estão a ser identificados compulsivamente pela polícia, algo que não acontecia na Europa Ocidental desde o nazismo. No outro dia, duas meninas ciganas morreram afogadas numa praia de Nápoles e os seus corpos estiveram ali expostos sem que isso incomodasse os banhistas. A Itália dá-se a este luxo: está agora obcecada com os ciganos, como se de repente os seus políticos fossem incorruptos, já não houvesse italianos mafiosos nem pilhas de lixo para apanhar nas ruas.

Eu estou certo de que os italianos não são racistas; mas pelos vistos faltaram-lhes anti-racistas em número suficiente no momento certo.