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M. Eugénia Prata Pinheiro

sábado, novembro 27, 2010

Medo da rua - take 2

São José Almeida, no Público

[...]Justificar completamente


É cristalino que está em curso a adopção de um discurso de propaganda que pretende criar um clima de temor às forças de segurança e de isolamento do que pode ser o protesto. Esta estratégia de intimidação é transparente e consiste em passar a mensagem - que é de forma estranhamente acrítica reproduzida pelos jornalistas - de que há manifestantes perigosos e, por isso, é preciso fechar num quadrado sob escolta de polícia de intervenção uma manifestação que é feita pela Marcha Mundial das Mulheres, a ATTAC, as Panteras Rosa, um grupo de rastafári (para quem não saiba é um movimento religioso pacifista) e um grupo de anarquistas, mais um deputado do BE, José Soeiro (um dos mais preparados deputados em exercício) e um militar de Abril (Mário Tomé).

Ora, isto é demasiado básico, demasiado burro. E custa a acreditar que alguém, que pense e tenha estudado alguma coisa, acredita mesmo neste blá-blá-blá. Mas o que é facto é que a mensagem passa e está em marcha uma operação de propaganda (burra, baseado no senso comum mais ignorante, mas que faz escola) para enquadrar ideologicamente a prevenção securitária em relação ao que o poder considera que pode vir a ser o protesto e a revolta social provocados pelo apertar do torniquete sobre os direitos e a qualidade de vida dos trabalhadores.

Uma estratégia de intimidação que opta precisamente por cercar os novos movimentos sociais, defensores de causas que ainda são desconhecidas e estranhas à maioria da população. E se a distância da maioria dos cidadãos em relação ao que são estes movimentos não cria solidariedade e indignação, o que é facto é que a imagem de força da actuação policial vai criando um clima de reverência e medo que pode prevenir outras movimentações.

Ora, este movimento de endurecimento do Estado securitário - visível, por exemplo, na compra de carros antimotim blindados e também na utilização de polícia de intervenção, armada com metralhadoras, para policiar uma manifestação antiguerra, ou as intervenções agressivas da polícia na greve geral face ao piquete dos CTT e o do Teatro D. Maria -, não é uma peculiaridade portuguesa e é, sim, o outro lado da moeda da política de emagrecimento do Estado social, tão do agrado do movimento neoliberal que influencia os rumos da União Europeia e que está em curso também em Portugal. Com dimensões de arbitrariedade do poder que atinge o despudor absoluto ao atrever-se a abrir excepções aos cortes salariais em algumas empresas do Estado (será para proteger o salário das clientelas partidárias?).

E não é por acaso que este endurecimento surge agora. É que quando a retirada de direitos e de nível de vida aos cidadãos subiu um degrau e pôs os estados-membros da UE a retirar poder de compra não só aos que caem no desemprego e no precariado, mas também aos que trabalham, nomeadamente através da baixa de salários e do aumento de impostos, é normal e previsível que o protesto saia à rua - a história ensina que, por exemplo, os aumentos de impostos geram revoltas.

A greve geral foi um sinal político do descontentamento que existe já e de como a revolta pode estar latente. É esse medo da rua que leva à deriva securitária que se assiste em Portugal. E que, por mais ridícula que seja, é grave e põe em risco as regras da democracia tal como a conhecemos até hoje.

Jornalista (sao.jose.almeida@publico.pt)

1 Comments:

Blogger que deus me acuda said...

Pois é. E eu que estava tão bem no esquecimento disto tudo.

11:15 da tarde  

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