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M. Eugénia Prata Pinheiro

sexta-feira, março 19, 2010

“ECD: Ameaça Iminente” - esteve para ser uma peça cinematográfica quase perfeita, mas não foi…

Texto do Octávio Gonçalves

…faltou-lhe realismo, porque, como diz o povo, “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”.
Por mais mise en scènes e por mais manobras de diversão que ME e sindicatos (FENPROF e FNE) ensaiem, há uma verdade lapidar que os persegue e contra a qual a história aconselha ser ocupação inglória agitar fantasmas tenebrosos, inevitabilidades ou convicções circunstanciais: ninguém constrói nada de convincente e duradouro em cima de farsas, injustiças, processos faz de conta ou incoerências, além de que a transigência face a princípios e a reivindicações justas, em nome de uma capitulação juvenil ao charme, é um rabo de fogo que, mais cedo ou mais tarde, consumirá as entranhas daqueles que, tendo a força e a razão do seu lado, cederam inexplicavelmente.
Afirmado isto, e toda a gente sabe do que falo (a farsa de um ciclo de avaliação promovida a coisa séria e válida para efeitos de progressão e concursos, uma exigência de suspensão miraculosamente convertida em aceitação, o sempre aviltante castigo dos que tinham a razão e a decência do seu lado por contraposição à recompensa dos seguidistas ou oportunistas, um sistema de quotas que nem por cima dos seus cadáveres seria aceite, um modelo de avaliação que, num golpe de mágica, passa de rejeitado/enjeitado a legitimado e credível, numa lista quase interminável de outras enormidades que farão a história da firmeza da luta sindical), concentremo-nos, então, no filme que prometia um arraso de tsunami, mas, cuja produção foi, entretanto, abortada.
Propositadamente, não gastei, nestes dias, uma linha que fosse a brandir contra os moinhos de vento da harmonização do ECD à lei geral da Função Pública (o que não significa que no futuro e existindo maioria socialista - cruzes canhoto - tal não venha a ser seriamente tentado, porque o PS é definitivamente o partido anti-professores), consubstanciados na encenação do assim chamado “Projecto de Alteração ao ECD" de 15 de Março, porque a ameaça não era credível, nem no tempo, nem no modo.
Como ainda ontem foi confirmado, quartel de Abrantes e tudo não passou de uma encenação, cujas finalidades são por demais evidentes, de tal modo que alguns protagonistas não contiveram o impulso de as propalar imediatamente, sob a forma de gesta heróica da resistência sindical que, de uma penada, garantiu:
- a imprescindibilidade de se ter assinado o Acordo de Princípios para agora se poder ser credível na contestação (não percebi a associação, mas talvez queira significar que favor com favor se paga);
- a criação de condições para se continuar a negociar, a negociar e a negociar indefinidamente, porque é disto que se alimenta a vida sindical, enquanto no quotidiano escolar os professores estão fartos de ataques, de mudanças permanentes de tudo e de nada, antecipam as suas reformas, falta-lhes a alegria e o espírito de cooperação, assim como deixaram de se rever no clima das escolas e de ter paciência para aturar pequenos tiranetes, tantas vezes desqualificados técnica, científica e moralmente;
- a importância de se preservar o que já está conquistado no ECD, agitando-se ataques mais graves para acomodar as cedências anteriores.
No essencial, estamos perante um golpe de teatro, baseado num guião demasiado previsível que não garantiu, nem suspense, nem empolgamento, porque todos os protagonistas desta encenação estão interessados em vender um Acordo que muito poucos professores compraram (apaziguando um mal-estar e uma revolta latentes) e em promover uma imagem de abertura negocial (o ME) e um processo negocial (os sindicatos) em que os professores não acreditam verdadeiramente, porque se limita à negociação de lana caprina, uma vez que em relação às reivindicações centrais dos professores os sindicatos já capitularam em Janeiro.
Um final assim tão rápido e tão feliz para questões tão sérias só pode ser argumento de uma qualquer opereta bufa. Tretas, tretas, tretas… que só a revelação futura de um qualquer encontro fortuito no Chiado ou de uma qualquer reunião secreta no ISCTE (o disfarce terá incluído moto e capacete?) explicará cabalmente.
Da próxima vez, procurem ser mais convincentes e não vale a pena quererem refazer a história de uma entrada de leão e saída de sandeiro (em Janeiro), com uma entrada e saída simultâneas de leão que apenas acontecem no circo e não em processos negociais.

A não ser assim, então o filme ainda é mais grave, pois traduz um ME de cabeça perdida, entregue a personagens de um amadorismo confrangedor e destituídos de qualquer sentido estratégico. Mas, não me cheira!...

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