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M. Eugénia Prata Pinheiro

quarta-feira, julho 22, 2009

Afinal, para que serve a escola?

22.07.2009, Santana Castilho

O valor instrumental do conhecimento deve ser uma consequência e não o objectivo ao qual tudo se subjuga

É minha convicção profunda que o próximo responsável pelas políticas educativas tem, obrigatoriamente, de assumir as intervenções que enumerei no último artigo se quiser recuperar a confiança dos professores e travar a degradação do sistema de ensino. Aquele elenco de medidas é politicamente incontornável e instrumento primeiro de uma reconstrução imperiosa. Mas deve ser complementado com uma acção segura de envolvimento da sociedade, num debate social sobre a missão da escola de massas e sobre o significado e pertinência de alguns conceitos que a condicionam definitivamente. Quando reflicto sobre o tema e avalio os estragos dos últimos anos, perece-me evidente que a falta de densidade cultural de quem governou a Educação nacional reduziu a zero o valor intrínseco do conhecimento. Como se a vida se limitasse a utilidades imediatas e a competências instrumentais. Como se nos bancos das escolas se sentassem robôs em vez de pessoas.

Afinal, para que serve a escola? Definitivamente, para colocar um determinado acervo de conhecimento ao alcance dos alunos e assim cooperar num processo educacional mais vasto, que a extravasa. O valor instrumental que esse conhecimento possa vir a representar em contexto de vida social deve ser consequência, que não objectivo determinante a que tudo se subjugue. E toda a acção educativa deve ser norteada por esta filosofia, se quisermos seres autónomos, capazes de perceberem o mundo que os rodeia.

À ideologia pedagógica que se apoderou do Ministério da Educação juntou-se, nos últimos 4 anos, uma teologia de resultados e uma manipulação estatística que dilaceraram o valor intrínseco do conhecimento, empobrecendo drasticamente a qualidade da escola de massas. A sobrevalorização dos processos por referência ao conhecimento, ditada por uma falsa doutrina de sucesso a qualquer preço, criou mesmo mecanismos perversos de discriminação social.

Refiro-me à ideia peregrina de diminuir a exigência do conhecimento a adquirir por determinados grupos, social e economicamente desfavorecidos, assumindo como corolário dessa debilidade uma capacidade intelectual menor desses grupos. Querem mais maquiavélica forma de eternizar as diferenças? Esta desvalorização do valor do conhecimento, porque prejudica os resultados que os responsáveis querem exibir, explica também o aviltamento de certas disciplinas científicas, estruturantes de uma sólida formação humana. Falo da Filosofia, da Matemática, da Literatura, da História e da Geografia, por exemplo. Boa parte da seriedade de conteúdos doutros tempos foi preterida por listas de competências pós-modernas ou por actividades educativas sem substrato cognitivo. Mais uma vez, o resultado é evidente: os pais mais cultos e mais ricos ensinam ou pagam a quem ensine o que a escola não trata; os outros permanecem escravos da rua e da televisão. Este estado de coisas evidencia um erro clamoroso das políticas educativas dos últimos tempos: quando decidiram baixar o nível de exigência cognitiva, acreditando que lograriam assim motivar os culturalmente mais débeis, tão-só generalizaram a mediocridade. Parece óbvio que o caminho passa pela coragem de retomar conteúdos cognitivos nucleares, cujo valor intrínseco seja aceite por via de um debate social que o demonstre. Mas, aqui chegados, dizer que devemos voltar à prevalência dos conteúdos cognitivos centrais e à consagração do valor intrínseco do conhecimento não nos levará além de um simples enunciado de intenções, que só ganhará credibilidade quando concretizado em medidas. Sem as esgotar, que o espaço mais não permite, destaco três, que reputo como prioritárias:

1. Consagrar a autoformação dos professores, assistida por estruturas competentes de supervisão e superação de dificuldades científicas. Não há outro caminho. Tutelar e centralizar a formação contínua seria mais da mesma ineficácia.

2. Retomar a cooperação entre professores, que a competição artificial de uma avaliação do desempenho sem sentido nem ética destruiu. Neste quadro se filia outro erro monumental perpetrado pelo poder, qual seja o de ter conduzido à reforma antecipada, nos últimos anos, qualquer coisa como oito mil docentes dos mais qualificados e experientes, dilapidando gratuitamente, sem visão de futuro e de modo irresponsável, a cooperação intelectual e pedagógica intergeracional, por meio da qual os detentores de maior formação e competência didáctica iam enquadrando e formando em serviço os mais jovens e inexperientes.

3. Expurgar os programas escolares de orientações didácticas e metodológicas sem sentido, que desorientam e castram a autonomia científica e pedagógica dos docentes e reduzem ao ridículo a solidez cognitiva das disciplinas.

Este será um trabalho de anos que, pacientemente, irá reconstruindo a consistência e a maturidade de um corpo docente responsável. Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

8 Comments:

Anonymous Bismark said...

Eu não vejo motivação de ir a escola todos os dias só pra ficar sentado copiando lição, parece que é só isso que os professores fazem com a gente

8:38 da tarde  
Anonymous setora said...

Bismark
Não quero acreditar que os professores se limitem a fazer copiar lição.
Imagino que você está no Brasil e não sei como funciona aí a escola mas suponho que os professores reagirão aos problemas que os alunos lhes puserem. Experimente.

10:12 da tarde  
Blogger Art'Rios Artesanatos said...

Professora, adorei o que escreveu sobre afinal para que serve a escola? estou fazendo pedagogia e gostaria de saber se posso utilizar parte do seu texto como ajuda num trabalho de portifólio da faculdade por ser o que escreveu muito parecido com aquilo que penso, só que escreves bem melhor, claro que colocarei a devida refêrencia, aguardo resposta. Desde já agradeço. Bjs. Lorena.

4:07 da tarde  
Anonymous setora said...

Cara Lorena,

Este texto não é meu. É do professor Santana Castilho, um dos seus bons textos de opinião que vai publicando no jornal "Público".

Suponho que o professor não se incomodará se o seu texto for usado e puder provocar debate em volta das suas ideias.

Bom trabalho
Eugénia

9:09 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

de que ir a escola, se depois de varios anos a estudar, não se consegue encontrar emprego?
não seria uma perda de tempo?

12:48 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

ñ poderia ezeite a escolaaaaaaaaaaaaa

7:38 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Pra mim a escola é um local de alienação e aculturamento humano. A instituição que titulamos como "escola" Alicerça o nosso sistema politico, no momento em que os ensinamentos transmitidos nesse local serve basicamente para formar mão de obra para o mercado de trabalho. E a criticidade para com o mundo em que vivemos? E a visão da escola para transformação da realidade do individuo??tudo isso na maioria das vezes fica de lado. As nossas instituições de ensino como já afirma Sacristan esta regida por um currículo imbuído de pensamentos políticos, que alienam a massa e segregam as classes.

1:52 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Atualmente eu acho que o sistema educacional Brasileiro esta ultrapassado, e devemos dar um upgrade em relação a essa medida. Escola na minha interpretação não consiste apenas em matemática etc... eu acho que os alunos tem que seguir suas paixões (matérias) conforme ele siga isso na sua carreira profissional opitando por "fazer aquilo que você Gosta" e o que vai ser necessário para sua rotina quando exercer uma profissão. No ranking mundial educacional o Brasil esta em 35¤, e em primeiro lugar a Finlândia onde os alunos tem livre e espontânea vontade de fazer o que ele quiser, e repare a posição dele, nenhum país supera esse sistema educacional no mundo a mesma educação que nós usamos é a mesma que de 150 anos atrás, a escola atualmente esta exercendo a função dos alunos ficarem Ansiosos frustrados e depressivos, e eu posso falar claramente isso . Bom o texto ficou um pouco longo e por meio desta expresso meu sentimento como aluno. Muito obrigado.

12:26 da manhã  

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