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M. Eugénia Prata Pinheiro

sábado, julho 18, 2009

Pesadelo

[No gabinete da direção. Caixas de papel arrumadas junto às paredes. Na secretária montes de papéis quase encobrem a figura do senhor diretor. Durante a conversa, diversos diligentes funcionários da secretaria vão amontoando mais e mais caixas de papelada. De quando em quando depositam mais umas resmas sobre a secretária anunciando em surdina - autoavaliações.]


Diretor - Diga lá! Tenho agora cinco minutos para o ouvir.

Prof - Deve ter lido, senhor diretor, no meu relatório adiantava a absoluta necessidade de uma sala ou saleta para o trabalho com os alunos estrangeiros...

Diretor - Não me faça perder o meu precioso tempo. Sabe bem que é impossível.

Prof - Vi que atribuíram outra sala para os diretores de turma. A sala que vaga servia perfeitamente...

Diretor - Está a brincar comigo. Não viu a porta blindada que já está colocada? Não pensa?

Prof - Pois, dispensava a porta blindada, não fazia qualquer falta. O espaço devia ser tão aberto quanto possível para que os alunos, sem grande cerimónia prévia, pudessem frequentá-lo. Dicionários, mapas, um computador...

Diretor - Porta blindada significa segurança, ilustre colaborador. Arquivo, arquivo. Nesse espaço ficarão em segurança todas as grelhas que foram projetadas. Se este ano ainda não tiveram uso, lá virá o momento...

Prof - Bom, então a sala ao lado, de onde vi retirar já os computadores ...

Diretor - Mas não viu a porta blindada já preparada para ser instalada? Não percebe que é o espaço adequado para arquivar os portefólios? Arquivo, arquivo é do que preciso...

Prof - Aquele aproveitamento envidraçado junto à escada serviria bem...

Diretor - Ilustre colaborador, e as grelhas finais, as autoavaliações? São resmas e resmas a requerer absoluta segurança.

Prof - Mas as vidraças para a papelada, hummm... Seria até bom ver os alunos lá dentro daquele espaço, uma espécie de aquário com gente dentro. Muitos deles são bastante interessados, trabalham, têm dúvidas, de certeza que o frequentariam com regularidade, muito para lá dos tempos de aula de português língua não materna...

Diretor - Que ideias tolas, ilustre colaborador! Quais vidraças! As vidraças vão sair. Tijolo e blindagem total. Acesso apenas pela secretaria. Mais uma porta com segredo. Segurança, segurança é o que me faz falta.

Prof - E as aulas de PLNM, o trabalho com esses alunos? São tantos cá na escola!

Diretor - Ilustre colaborador, as suas preocupações devem coincidir com as minhas. Preocupe-se com os papéis. Deixe os alunos em paz. Os papéis, os papéis...

O prof estava já em bicos de pés para conseguir ver os olhos e o cimo lustroso da careca do senhor diretor. A mão do senhor diretor que surgiu por trás da papelada acumulada na secretária, acompanhando num estreito volteio a sua última fala, obrigou o prof a olhar em volta. Estava cercado, muralhado por caixotes... O senhor diretor cantarolava arquivo, arquivo meu, meu belo arquivo, arquivo imenso... O prof desfaleceu...

e eu acordei, irra.

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