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M. Eugénia Prata Pinheiro

quinta-feira, setembro 30, 2010

Três personagens em busca de um enredo

Por Pedro Lomba



Na semana passada, 23 de Setembro, notícias dos jornais informavam o mundo que António Mexia, o CEO da EDP, andava por Nova Iorque liderando uma comitiva da empresa de electricidade na Clinton Global Initiative, um fórum de líderes que organiza acções humanitárias. Com a comitiva de Mexia viajou também um "grupo de órgãos de comunicação social a convite da EDP" (Jornal de Negócios, 23-9) e, aqui como em tantos outros casos, "a convite da EDP" significa aquilo que já sabemos, que nos tempos recentes a agência de viagens EDP tem tido muito trabalho.

Ao mesmo tempo que Mexia desaguava em Nova Iorque, acompanhado (como sempre) por uma pequena legião de jornalistas "a convite", quem também voou para a cidade americana na mesma altura foi outro português notório. "José Sócrates dá hoje início a uma visita de três dias a Nova Iorque. Na bagagem leva as políticas nacionais na área da energia e também a candidatura portuguesa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas." (Antena 1, 23-9).

Nem de propósito. Mexia e Sócrates em Nova Iorque cada um com programas distintos, embora tangíveis. E facilmente os jornalistas que integram a comitiva de Mexia passam a ser os jornalistas que acompanham a comitiva de Sócrates na sua expedição à ONU (um golpe publicitário sem interesse) e à Universidade de Columbia, no meio de outros gestos que escorreram para a imprensa.

Continuemos, então. "Sócrates chega a Nova Iorque ao início da tarde e poucas horas depois discursa na Universidade de Columbia, num fórum mundial de líderes sobre política energética e agenda de crescimento em Portugal."??(Diário Económico, 23-9).

Columbia é uma universidade de topo na América. Sucede que é também a universidade onde o anterior ministro da Economia Manuel Pinho, demitido pela célebre cena dos corninhos, se encontra de momento a dar aulas, adequadamente pago pela própria EDP (preço: 3 milhões). Então, se bem percebemos, Sócrates vai a Columbia dar uma lição em bad english, recomendado pelo seu amigo Pinho, que por sua vez só está em Columbia graças à generosidade do seu amigo Mexia (e, permito-me acrescentar, dos consumidores portugueses de electricidade). Esta coincidência de agendas só pode merecer elogios.

De maneira que em Nova Iorque, na semana passada, Sócrates, Mexia e Pinho protagonizaram um daqueles momentos de teatralidade que, fora dos palcos, só podem existir na política, porque só a política produz este elevado grau de aparência e falsidade. Uma daquelas coreografias engendradas dentro dos gabinetes ministeriais, postas a circular pelas agências de comunicação e tragicamente "compradas" por uma imprensa impotente.

Vai uma pessoa convencer-se disto. Mexia transposta uma comitiva de jornalistas com ele para Nova Iorque para expelir todo o seu humanitarismo e amor pelo próximo, Sócrates vai atrás (por estranho que pareça, na mesma exacta semana), levando consigo os feitos energéticos do Governo e Pinho, que já lá está, recebe Sócrates na prebenda universitária que Mexia lhe arranjou.

Seria por isso tentador achar que estas três personagens estiveram em Nova Iorque na semana passada representando papéis autónomos, cada um na sua peça, indiferentes ao seu destino comum. Só que os três estão tão ligados entre eles, dependem tanto uns dos outros, beneficiam-se tanto uns aos outros, que são todos personagens da mesma tragicomédia, todos em busca do mesmo enredo. Jurista

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