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M. Eugénia Prata Pinheiro

domingo, junho 21, 2009

António Guerreiro ao pé da letra, no "Expresso"

A morte do examinador é a contradição perfomativa.

O que chama a atenção na prova escrita de Português do 12º ano não é o enunciado mas os preliminares: dezena e meia de indicações, prescrições, prevenções, proibições. Com um zelo burocrático total, os examinadores não deixam nada ao acaso, não ousam permitir aos alunos uma margem mínima para estes exercerem voluntariamente e sem tutelas as normas básicas do bom senso (por exemplo, que a resposta a um determinado item deve ser identificada com o número ou a letra desse item). Hoje tutelados, amanhã delapidados - eis o destino de uma geração. E porque nada pode ser deixado à mercê de decisões e interpretações pessoais, os examinadores chegam ao ponto de avisar na pag. 7: "Página em branco". Mas aqui incorrem numa contradição que não admitiriam aos alunos: a chamada 'contradição performativa,' que consiste em dizer algo que é imediatamente desmentido por aquilo que se faz: nenhuma página pode ser em branco se nela está escrito "Página em branco". E se os alunos, perante tão enigmática "Página em branco", mandassem os examinadores para onde eles merecem - para Aristóteles e Karl-Otto Apel?

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