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M. Eugénia Prata Pinheiro

sexta-feira, novembro 24, 2006

Substituições parte III - enigmas

Enigma 1

Este foi o problema colocado aos alunos:

Se sete meios dos berlindes do Sérgio são verdes e ele tem 12 berlindes verdes, qual o total de berlindes do Sérgio? Explica o teu raciocínio.

E o enigma é: como foi possível chegar a esta formação de professores de matemática.

A professora que colocou na ficha de trabalho para os alunos este problema garante que está bem, que tem solução (embora ainda não me tenha explicado o seu raciocínio) e ela própria, segundo afirma, está envolvida na formação de professores e está em vias de obter um mestrado em Educação, especialidade em Didáctica da Matemática.

Só não me rio de tudo isto porque fui obrigada numa das tais famigeradas substituições a deixar nas mãos dos alunos a ficha.

À hora da aula foi-me dada guia de marcha para uma substituição de matemática "com plano" que nesse momento me foi entregue. E a tal ficha que os alunos iriam trabalhar continha, para além deste absurdo problema, muitas outras formulações pouco rigorosas.

Saltaram-me as falhas à frente logo que peguei nos papeis mas devia avançar para a aula. Adoptei a estratégia de demorar os alunos na primeira parte do trabalho, leitura de números fraccionários, comparação de números fraccionários, evitando avançar. Mas tive que deixar a ficha nas mãos dos alunos de acordo com as instruções do plano. E sou eu a responsável por esse depósito obscuro.

Reclamei no meu departamento mais uma vez contra o absurdo destas substituições com plano entregues em cima da hora. Referi-me à ficha dizendo apenas que me levantara alguns problemas quanto à formulação de algumas questões e que havia mesmo um problema que eu não sabia resolver. Não disse o nome de ninguém porque tudo isso era secundário e o que me interessava era que este tipo de substituições em cima da hora e de uma área que não é a minha fosse levado mais uma vez à discussão no Conselho Pedagógico.

Segundo me explicaram depois, a coordenadora do meu departamento e a do departamento de matemática entretiveram-se a pesquisar quem tinha sido o professor substituído e passaram-lhe (mal) a informação do meu comentário na reunião.

O professor substituído, a quem passo a chamar X, resolveu enviar documento à presidente do Conselho Executivo requerendo-lhe que me solicitasse explicações e que referisse a minha formação científico-pedagógica na área da Educação Matemática.

A presidente do Executivo, aqui actuando bem, chamou-nos a ambas à sua presença na intenção de resolver ali o assunto. Expliquei a X o que se passara na reunião, que constaria da respectiva acta e onde o seu nome não fora falado nem a ficha discutida. Propus-me, no entanto, dizer-lhe o que me parecera (fui tão doce!) formulado com pouco rigor, o erro do problema e sugeri-lhe argumentos de ultrapassagem "fizeste aquilo à pressa, pegaste numa qualquer ficha dum desses velhos arquivos". Levou algum tempo a aceitar que sete meios é maior que a unidade mas considerou perfeita a ficha, cuja autoria reclamou, falando um eduquês que me dispensei de fixar. E manteve-se na sua - queria tudo escritinho.

A presidente do Conselho Executivo lá me fez o envio formal do documento e lá terei que gastar tempo com isto. Lá, lá, lá, lá, lá.

E o ridículo de me pedir informação sobre a minha formação em Educação Matemática? Claro que é aquela que tem permitido que faça estas substituições! Só nesta área e com plano em cima do minuto da aula já lá vão uma de 7º ano de decomposição em factores primos, esta de 6º com números fraccionários e uma de 8º com números relativos. Que competência!

Ninguém acaba com esta brincadeira de mau gosto?

Deixem-me reformar-me!

Tirem-me daqui, tirem-me desta matemática post-moderna!

E aproveito para prestar homenagem ao meu querido pai, um excelente professor de matemática, à minha querida irmã que foi uma excelente professora de matemática neste nível até a terem desviado para a investigação e para o ensino universitário e a quem, quando tem que dar alguma aula, os alunos frequentemente aplaudem, à minha jovem ora contratada ora desempregada querida filha que optou por ser maçarica no 1º ciclo e que cuidadosa e rigorosamente trabalha com os alunos esta área. (Elas são capazes de não achar graça à citação mas apeteceu-me e elas não frequentam o meu blog)

Devia estar no estatuto um artigo a autorizar a reforma antecipada aos professores que tenham filhos voluntariamente na profissão!

Enigma 2

Na tal reunião de Departamento informou-me a coordenadora que, de acordo com decisão do Conselho Pedagógico, eu seria obrigada a substituir o professor de religião e moral (até me dou bem com o homem!) sempre que tal for necessário e eu esteja de plantão.(post Odeio substituições, neste blog)

E o enigma é: como é isto possível com uma disciplina de opção, numa escola pública que se diz laica e uma Constituição que diz garantir a liberdade de consciência.

Comuniquei para a acta que faltaria. Que injustifiquem.








8 Comments:

Anonymous António Fonseca (o professor de EMRC) said...

Eu gostava de saber porque carga de água te saí na rifa. Se não queres substituir-me aceita as consequências, até porque como tive que faltar de surpresa, não fiz nenhum plano. A aula era da tua inteira responsabilidade.

8:25 da tarde  
Blogger pedro macieira said...

Como comentei anteriormente ser(português) professor, por estes lados não é nenhuma pera doce..........e realmente isto das aulas de substituição... alguém escreveu e eu assino por baixo, tira todo o prazer do gozo da falta do professor aos alunos, e eu lembro-me quando aluno esperava (tantas vezes), que o toque que permitisse deixar de esperar pelo professor se fizesse ouvir, para todos a turma começar a correr pela escada abaixo, não fosse o professor ainda aparecer......
Isto hoje pode parecer politicamente incorrecto, mas era assim....
Tenho-me perguntado várias vezes quando ouço a Ministra (da Educação), e o seu Secretário (da Educação)onde é que ela andou estes anos todos , em que tudo estava tão mal...........

PS: relativamente ao secretário parece que anteriormente era independente em listas do CDS.

11:50 da tarde  
Anonymous Brutus said...

Sabe a colega que o erro é característico do ser humano. Se a colega não erra das duas uma:
- ou acha que não erra pois não dá com o erro
- ou é retorcidamente perfeita

Lembro-lhe colega que não dá aulas sozinha, e o seu trabalho é facilmente criticável pelos que a rodeiam, outra característica muito humana, criticar o trabalho dos outros.

Já agora, que a sua filha nunca encontre alguém como a própria mãe, ávida por destruir o trabalho dos outros...

1:27 da tarde  
Blogger Setora said...

Que comentário fácil!

Torcer o que está escrito para passar ao ataque, é canja.

Por que não discute os problemas de fundo que são levantados?

As escolas que temos, os professores que somos, o modo como nos relacionamos, como comunicamos entre nós e com os alunos,o trabalho conjunto que fazemos ou não fazemos...

Quem lhe disse que não erro? Eu não fui.

Espero que, pela vida fora, a minha filha encontre pessoas capazes de lhe apontarem os erros que cometa.

A avidez de destruição está na leitura que faz do meu texto - tortura as palavras, as frases, de modo a que pretensamente digam o que lhe dá jeito.

4:17 da tarde  
Anonymous Brutus said...

Parece, olhando para os comentários que tece, uma descontente que pouco faz pela mudança, não concorda com nada, está tudo mal. Faz facilmente uso da crítica, toda ela destrutiva, até parece anarquista. Continua a esconder-se atrás da sua coragem, entenda-se cobardia, atacando os outros. Permita-me perguntar-lhe, o que faz assim de tão certo?

4:55 da tarde  
Blogger Setora said...

A necessidade que sente de me enfiar num qualquer "...ista" do catálogo define-o.

Despoje-se de preconceitos e veja se consegue LER.

E evite repetir-se.

11:49 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Muito bem respondido. Muito bem mesmo.

Gosto muito deste blogue, sou leitora assídua desde o começo, Parabéns.
A minha mãe também é professora do ensino secundário e tenho assistido de perto a todos esses dilemas à mesa do jantar.

1:28 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

bom comeco

2:03 da manhã  

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