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M. Eugénia Prata Pinheiro

terça-feira, setembro 25, 2007

Descontinuidades

Volto às salas da minha escola deste meu mundo outro agora a abarrotar de gente. Este ano enfiaram-se naquelas salas turmas de 26 alunos, do 6º ano, ou de 28 alunos do 5º. Para lá da falta de ar e da oferta gratuita de sauna, o espaço exíguo para tantos alunos quase não me permite circular pelas coxias. Cuidado máximo para não lhes perturbar a escrita nem lhes derrubar os cadernos. Não sendo anoréctica, também não sou obesa mas, ainda assim, não consigo evitar um piparote aqui, outro piparote acolá. E, continuando a chegar ao 5º ano alunos que não dominam de todo, ou mal dominam, a leitura e a escrita, é forçoso esse trabalho mais próximo que fica quase interdito.

No ano passado trabalhei com duas turmas de 5º ano. O normal seria aplicar aquele conceito de continuidade pedagógica defendido no mundo real. Aqui neste mundo outro aplica-se consoante. A mim e aos meus alunos frequentemente não se aplica.

Este ano lá exterminaram uma das turmas com que trabalhei. Razões aleatórias. Não teve grande êxito mas não foi a turma com maior insucesso do 5º ano.
A turma tinha sido constituída nos seguintes termos:

Cinco alunos – permanência de 7 anos no 1º ciclo (um deles não aprendera a ler)

Dois alunos - 6 anos no 1º ciclo (um deles não aprendera a ler e o outro mal conseguia fazê-lo)

Quatro alunos – 5 anos no 1º ciclo

Três alunos a repetir o 5º ano

Nove alunos com indicação de 1º ciclo satisfatório

Um aluno acabado de chegar do Brasil com um nível satisfatório

Esta constituição de turma indiciava dificuldades que se agravaram com circunstâncias diversas:

Três professores da turma (os dois de EVT e a professora de Matemática/EA) meteram baixas prolongadas o que implicou a sua substituição, no caso da Matemática com intermitências e estando depois doente por um período superior a duas semanas a própria professora que substituía a professora titular da disciplina.

Tudo isto reduziu o número de aulas e aumentou o número de actividades de acompanhamento educativo apoiadas por variados professores, o que contribuiu para aumentar a desestabilização da turma. Neste mundo outro estas actividades transformam-se frequentemente em acompanhamentos deseducativos.

O horário da turma concretizava-se em mais de doze salas. Lá andavam os alunos saltando de sala em sala com a carga às costas.

Não foi possível encontrar uma solução que permitisse um apoio dedicado àqueles alunos que não conseguiam ler. Propus trabalhar com eles nos meus furos já que neste mundo outro o meu horário ultrapassava as vinte e nove horas de permanência na escola. Não foi autorizado porque perderiam algumas das suas aulas que coincidiam com os meus furos, blá, blá, blá... perderam-nas todas porque se fartaram e abandonaram a escola.

Transitaram catorze que foram espalhados por outras turmas. Requeri em Julho ficar com a turma onde tinham incluído oito destes alunos, turma que não tinha professor de continuidade.Tivera um professor contratado agora desempregado. Soube em Setembro, dois dias antes do início das aulas, que o meu requerimento fora indeferido.

A distribuição do serviço neste mundo outro é fantástica. A um professor do grupo História/LínguaPortuguesa, que leccionou Língua Portuguesa com sucesso reconhecido, atribui-se História; a um professor do mesmo grupo, que gosta de leccionar a História e que nunca leccionou a Língua Portuguesa, atribui-se a Língua Portuguesa. Foi este mesmo que ficou com aquela turma. São enviesados os caminhos do êxito.

Com a minha jurássica licenciatura em Filologia Românica, vou mantendo a Língua Portuguesa e, por tabela, o Estudo Acompanhado e lá mantive um 6º ano de continuidade. Ganhei um 5º ano, o tal de 28 alunos que me garante a prática de slalom.

Prometi a mim mesma que, no ano em que não conseguisse ter dominado todos os nomes dos alunos no final da primeira aula, meteria a papelada para a reforma. Ainda não é este ano. Vai-me valendo (ou desvalendo?) o meu santo Alzheimer.




3 Comments:

Anonymous Zé Fernando said...

Além da Filologia Românica também tens uma memória jurássica...

2:57 da tarde  
Blogger Andreia Videira said...

Obrigada pelo comentário no meu cantinho! :)

Isto do ensino no MUNDO REAL não está mesmo nada fácil... às vezes cheias de ideias e motivação (mesmo perante a situação em que estamos) em prol do sucesso dos alunos... e nunca se abre uma porta...

Que nos reste o facto de termos, ao menos, uma pequenina oportunidade de fazer o que gostamos...

No final da primeira aula... os nomes todos???... Parabéns!;)

10:48 da tarde  
Blogger Setora said...

É verdade que consigo fixar-lhes os nomes. Tem alguma técnica:
1º Levo na cabeça essa intenção.
2º Geralmente organizo-os por ordem alfabética e enquanto procedo à cerimónia vou atentando e ligando cara/nome.
3º Durante essa primeira aula treino. Vou perguntando coisas, na fase de apresentação, e usando sempre os nomes.

Resulta e com esta "habilidade" desencadeio espanto e "agarro-os".

Este ano eram tantos e a sala tão pequena (e só tinha 45 minutos) que nem tentei a organização por ordem alfabética. Temi pelo resultado mas, ainda assim, cheguei lá.

1:15 da manhã  

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