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M. Eugénia Prata Pinheiro

sábado, abril 28, 2007

Má memória

Talvez por ser velha safei-me de apanhar umas desbragadas bastonadas iguais às que vi serem desvairadamente aplicadas por potentes "action men" nos jovens que neste democrático 25 de Abril desciam a rua do Carmo.

Confesso que, não confiando nem nas minhas pernas nem nos meus braços, me deixei conduzir pelo filho que me acompanhava e me puxou para a parede. Fiquei ali ao pé de uns atarantados mormons ou meninos de deus ou qualquer coisa quejanda que freneticamente desmontavam as banquinhas de propaganda. Também estes foram poupados. Embora jovens, estavam sob a protecção respeitável de uma qualquer divindade.

A náusea que já sentira ao ver a guarda de honra policial montada durante a tarde desse dia ao cartaz xenófobo que enfeita a rotunda do Marquês aumentou significativamente perante o ataque selvagem a que inesperadamente assisti.

Imagino que me dirão que a guarda ao cartaz visa defender a liberdade de expressão. Então porque se retirou o cartaz que os Gatos Fedorentos colocaram? Então porque se impede a tomatada, também linguagem e com vitaminas e sais minerais? Então porque se reprimem brutalmente (pernas e braços partidos, bocas e cabeças sangrando, óculos partidos, narizes magoados) os que manifestam com cartazes e palavras de ordem os seus pontos de vista?

Porque escreveram nas paredes e fica feio? Feiíssimo é o cartaz que as forças da ordem zelosamente protegem. Ficaria bem menos incómodo à minha vista manchado por expressivo sumo de tomate.

Lançaram very-lights? A mim pareceu-me que quem os lançou foram as forças policiais mas os meus conhecimentos de geometria (?) e física (?) são insuficientes para analisar arcos descritos, velocidade... de forma a determinar com segurança o ponto de lançamento. Não vi qualquer cocktail-molotov. Não vi partir qualquer vidro.

Iam de cara tapada? Meia dúzia teria a cara meia tapada mas todos os outros tinham a cara descoberta. Vi bem mais caras tapadas por lencinhos e folhetos na descida da avenida. Eu própria cobri a minha.

E que diziam os cartazes e as palavras de ordem?

Desmascarar a democracia - está bem, sabemos que é apenas o menos mau dos sistemas que conhecemos e que à sua sombra se perpetram acções vis, crimes graves. Para que se mantenha como o menos mau sistema é bom que se vão desmascarando os seus pôdres.

Combater o fascismo, defender a liberdade - pois, também se disse na descida da avenida e é esse mesmo o sentido da celebração.

Racismo é ignorância - também se disse isto e outras palavras de teor idêntico pela avenida fora. Embora o racismo não seja fruto de ignorância. Seria bom que fosse apenas isso mas, como não é de esperar profundas análises políticas num cartaz ou numa palavra de ordem, entende-se como bom nos seus objectivos.

Imagino que o Governo, o Presidente da República os senhores deputados, os senhores magistrados dirão que fazem suas estas palavras de ordem. Até as "forças da ordem" terão inscrito na cartilha definidora dos seus deveres coisas próximas destas.

Enfim, também li lá num canto "combater a autoridade". Parece que ficou justificado e acertado. E não combateram nada. Estavam absolutamente desarmados diante daqueles "robot cop" que lhes caíram em cima.

Fiquei indignada.

Desde 1974 que no 25 de Abril as pessoas se manifestam na rua e isso é uma coisa boa. Mantém de algum modo viva a ideia da liberdade por oposição à opressão e ao medo. Pretende-se acabar com isso, mandar as pessoas para casa, tolhê-las? Diz-se que as escolas não estão a conseguir explicar aos jovens o 25 de Abril e há instruções para que este conteúdo dos programas receba maior atenção por parte dos professores e depois cai-se em cima dos jovens que vão para a rua celebrar Abril.

Uma série de medidas recentemente tomadas têm o ferrão da castração, visam limitar direitos dos cidadãos - centralização das polícias, poderes acrescidos para a entidade que regula a comunicação a par das pressões sobre jornalistas, o livrinho de etiqueta para os funcionários públicos. Desconfio que outras virão. Em tempos de crise, reprimir fica na ordem do dia.

No dia 26 ou 27 deste Abril, numa escola da Pontinha, os alunos, manifestando-se contra um assalto que resultara no furto de quatrocentos e tal euros da associação de estudantes, vieram para a rua e fecharam a cadeado o portão da escola. Foram reprimidos pela polícia e um dos estudantes levado para a esquadra. O aluno que falava à reportagem do canal televisivo que transmitiu a notícia (sic? tvi?) comunicou indignado que a polícia escolhera para aprisionar um estudante preto, parecendo-lhe ser esta razão colorida a única que motivara a selecção.

Pois, mantenham a guarda ao cartaz. Por algumas razões Sarkozy simpatiza com o Sócrates.




4 Comments:

Anonymous Zé Fernando said...

E viste algum transeunte ser insultado ou agredido?
No relatório policial, papagueado por todas as telvisões e jornais também se falava de polícias agredidos. Será possível ser mais descarado?
Mas de todas as desculpas para a violência completamente injustificada, a melhor foi o destino da manifestação, que a polícia dizia ser a sede do pnr na Rua da Prata. Será proibido ir à sede do pnr?
O pnr é que deivia ser proibido.
Os "anarquistas-libertários" (a rotulagem policial está a ficar refinada) que se manifestam na rua são atacados.
Os pnr's, que infectam as claques de futebol e outros espaços dedicados à violência, que se dedicam aos negócios escuros da segurança nocturna (cada vez mais a cargo de organizações para-militares de estilo mafioso), são uns coitadinhos, que merecem a protecção do regime democrático, que tanto abominam.
Se as muitas armas encontradas com o kapo machado não foram suficientes para acabar com este suposto partido, não sei o que será preciso, mas não vai ser bonito.

11:55 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Obrigado pelo teu blog.

A verdade tem que vir ao de cima.

O que é que define uma sociedade democrática? Ela auto-intitular-se democrática?

Parece-me pouco. E neste 25 de Abril, muito foi feito para comprovar o contrário.


Bastará votar para estarmos em democracia?

2:39 da manhã  
Blogger Manuel said...

Action-men?

7:47 da tarde  
Blogger Setora said...

Olá Manuel,

Sejas bem-vindo a estas minhas histórias.

Pois chamei àqueles cavalheiros action-men porque:
são como bonecos;
são robustos, musculados e protegidos
pelas indumentárias;
são feitos para a pancada.

Desfiz a tua dúvida?
Concordas agora com o uso do termo?

Um abraço

11:22 da tarde  

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