Escola

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M. Eugénia Prata Pinheiro

terça-feira, março 27, 2007

Nem sei como chamar-lhe...

Ridicularia?

Burocracia?

Delinquência?

Os conselhos de turma distribuem-se por três dias, segunda, terça e quarta. Alguns professores, por acasos da fortuna, tiveram as suas turmas distribuídas por segunda e terça. Alguns directores de turma e respectivos secretários completaram todas as tarefas que lhes competiam excepto uma - a entrega de toda a documentação ao conselho executivo.

Alguns, contentes com a sua eficiência, subiam o escadório próprio de qualquer santuário, ao encontro das divindades, transportando nos braços, em jeito de generosa oferenda, pautas, registos biográficos, fichas de informação aos ees, planos de recuperação, planos de desenvolvimento, acta... tudo devidamente organizado, trancado, terminado. Desciam desanimados com a fúria dos deuses.

Têm que voltar à escola na quarta-feira, na hora agendada (a horinha da missa), para cumprir em fila ordenada essa formalidade. A papelada por lá fica adormecida e mal instalada em cacifos atulhados onde, pelo menos as pautas, com maior dimensão, sofrerão as agruras de um tal destino.

São brincadeiras, exercícios de vão poder. Parecendo memória de Salazar, não é. Os tempos são outros, são de ressabiamento resultante da crise.

Vigias e capatazes, ocupem os vossos postos! Em frente com o autoritarismo coercivo!
(Onde é que eu li isto? Valha-me santo Alzheimer!)

São sítios de violência, as escolas. Também, às vezes, contra os professores. Vazias de alunos, vai de pôr nas cabeças docentes as orelhas de burro.

segunda-feira, março 26, 2007

Por mail

Recebi hoje por mail este texto que, devidamente autorizada, publico.


Ser professor em Portugal.

Escrevo este e-mail como resposta às muitas queixas que me vão enviando colegas professores e outros sobre a nossa profissão.

Achei por bem dar a minha opinião.

Sou professora do 1º Ciclo há 3 anos. Embora nestes três anos tenha encontrado algumas pessoas que pessoal e profissionalmente gostei de conhecer, até agora não tenho muito por onde defender a classe docente... Vejo e convivo com muito coisa que me desagrada.

Cheguei há 15 dias a uma escola onde a minha cara colega não me deixou nem projecto curricular de turma, nem sumários do que fez. E, acima de tudo, os alunos aprenderam muito pouco.

Esta é sem dúvida uma profissão altamente desgastante e exigente. Normalmente o fim de um dia de escola é como o fim de uma maratona. Demos atenção a muita coisa em simultâneo, amenizámos conflitos, reflectimos e raciocinámos para resolver questões e dúvidas...

Sim, as crianças conseguem levantar questões para as quais uma pessoa com uma boa cultura geral e uma formação universitária feita com leituras e reflexões não tem uma resposta imediata.

Tenho de chegar à hora exacta da aula, mas o que me preocupa não é a falta, são as meninas e meninos que estão à minha espera. Mas vejo muitos colegas acenderem cigarros na sala de professores, quando é a hora de entrar.

Também vejo muitos colegas a conversarem dentro ou fora das salas durante 10,15, 20 minutos, quando é hora da aula....considere-se aula expositiva ou actividades em que os alunos sejam mais os actores do seu caminho na aprendizagem.


Quase nunca faltei.Uma vez por ano. Mas já tive muitos colegas a faltarem para irem às Canárias, Caraíbas...Cinema...por aí fora. As férias que temos têm-me bastado mas nem pensem que as considero demais porque quem se dedica a sério chega ao fim de cada período fatigado de verdade.

A primeira vez que fiz um estágio numa escola é que percebi como isso era real. Ao segundo dia tive pela primeira vez na minha vida dores de cabeça. O mundo da escola é muito decíbel e agitação. Mas digo-vos que agora, embora nunca tenha dores de cabeça, canso-me a sério.

Trabalho aos fins de semana, trabalho depois de sair da escola e às vezes falo demais das proezas e desvarios d@s meus menin@s. Mas isso é que me dá alento...As relações que se constroem... As conquistas que fazemos, eu e eles.

Nunca tive problemas com pais ou encarregados de educação. Estive já em vários tipos de escolas, os guetos de Lisboa e dos subúrbios de Lisboa, zonas de classe média alta, meio rural. Sempre falei bem com toda a gente e todos me trataram igualmente bem.

Os alunos... Com esses sim, claro que tive problemas e vou tendo maiores ou menores todos os dias. Mas é essa a luta de ajudar a crescer, a ser feliz, a querer viver e aprender, gostar de tratar bem os outros e ser bem tratado. Gosto de reflectir e tentar mudar... Interrogo-me sobre o meu desempenho e às vezes não gosto. Mas tento dar o melhor, em carinho, em espírito científico, espírito crítico, ciências e artes... Às vezes penso que podiam ter aprendido mais. Reconstruo os meus valores e princípios com a experiência dos dias.

Alguns alunos telefonam-me nos anos. Outros convidam-me para jantar e passear. Falam-me no messenger. Ajudo alguns no que me pedem (imigrantes e afins), alguns que já nem são meus alunos.

E revolta-me a burocracia das secretarias, o desrespeito fundamental pelas pessoas, o desinteresse dos professores que desconstroem os processos que tínhamos iniciado.

Enraivece-me saber que o meu pequeno aluno chinês, um ás na matemática e que durante cinco meses, desde que chegou a Portugal, iniciei na língua portuguesa, está agora sentado no fundo de uma sala a fazer cópias de textos que não pode entender.

quinta-feira, março 08, 2007

Com tratantes de escola

O Provedor de Justiça devia meter-se nisto, na ilegalidade que grassa nesta contratação de escola.

Atiram para o currículo dos alunos pequenos a Área de Projecto e arrancam com este absurdo concurso sem serem capazes de prever consequências.

As contratações cíclicas terminaram em Dezembro e o decreto regulamentador da contratação de escola que passava então a vigorar apareceu a 15 de Fevereiro. (quantos pontos para a senhora ministra e para o aparelho ministerial por esta produção atempada?)

Nesse mês e meio de salve-se quem puder as secretarias das escolas ficaram a braços com centenas de candidaturas para cada vaga, começaram a sair das cartolas critérios de preferência não enunciados, apareceram as recomendaçõezinhas. As vagas ficavam por ocupar semanas e semanas para que a burocracia se excitasse escalonando candidatos.

Os horários a concurso anunciados no jornal, tinham também listagem na net. E quando terminava o prazo de apresentação de candidaturas, uma outra listagem anunciava a fase de processamento. E, quando finalmente o horário era atribuído, aparecia aí o nome do colocado. Os candidatos, que se esfalfavam a distribuir maços de papel pelas escolas com vagas publicitadas, podiam, pelo menos, ter algum controlo dobre a colocação.

Entrou então em funções uma aplicação informática para uso dos candidatos e das escolas. A net parecia vir pôr simplex no assunto. Inteiramente falso. As listagens anteriores sumiram e agora os candidatos recebem um seco não na pantalha.

Quem foi colocado em cada horário? Ninguém sabe, ninguém diz. As escolas, pelo telefone, não prestam essa informação - e chovem centenas de telefonemas. A DREL (e possivelmente a DREN, a DREC...) chutam para a DGRHE e a DGRHE devolve com perícia, embora no decreto apareça com função de coordenação. Todos recebem milhares de contactos por telefone (terá este esperado frenesim alguma coisa a ver com a desopa da PT?- é um maná!) e dezenas - ou centenas - de contactos pessoais que os candidatos, apesar de desanimados, não desarmam.

E, no meio de tudo isto, avançam os critérios de escola.

Algumas, muito justamente, adoptam a graduação profissional.

Outras entraram em verdadeiro delírio. Já vamos na freguesia, um dia destes chegaremos ao vizinho, àquele que mora mais próximo da escola, que ouve a campainha lá em casa para que possa andar ao seu toque. É o que está mais à mão, vai ao café da rua, é tão simpático, veste-se bem, sabe estar! Prioridade absoluta.

A moda das pontuações domina algumas. Entretêm-se a semear pontos. Já trabalhou um mês no agrupamento - 50 pontos; vive no concelho - 20 pontos; na freguesia - +10 pontos; sabe trabalhar com alunos difíceis - 30 pontos (estes são para todos porque, naturalmente, todos dirão que sabem). E treinam-se as adições. Provavelmente integra-se no plano de fomento do gosto pela matemática, dirigido agora para os funcionários administrativos e conselhos executivos.

Os alunos vão ficando sem as aulas que deviam ter, semana após semana e lá vai o piquete de plantão mantê-los afastados dos pátios.

Com tratantes de escola trava-se com denodo a batalha pela qualidade.

sexta-feira, março 02, 2007

Contratação de escola

Reina a confusão.

Os conselhos pedagógicos podem definir critérios de preferência mas esta gestão pós-moderna não sabe que, num concurso, as regras do jogo devem ser todas enunciadas para que os candidatos não vão ao engano. Assim, mais uma vez nesta escola, lá apareceram muitos candidatos para duas vagas. Ora puxou-se da manga um critério mistério, não publicitado na abertura do concurso - quem já tivesse trabalhado no agrupamento avançava- e chamaram-se dois dos candidatos que cumpriam o requisito. Começaram mesmo a trabalhar. Depois, balde de água fria, porque um dos candidatos, preterido e mais classificado, muito justamente reclamou da ilegalidade. E tem de se voltar atrás.

Lá ficam os outros dois, também enganados, pendurados.

Fica também pendurada a professora já reformada que, mantendo a sua dedicação aos alunos, decidiu que ficaria ao serviço até estar substituída (e esta nem já de pontos precisa, nem vai ganhar o óscar de melhor professor).

Para alguns alunos são mais uns dias sem as aulas que deviam ter.

Já antes acontecera a mesma ilegalidade mas, por sorte, ninguém reclamou (post Concursos faz de conta, de 13 de Fevereiro).

Brinca-se tranquila e impunemente com a paciência e com a vida das pessoas.