Escola

A minha fotografia
Nome:

M. Eugénia Prata Pinheiro

quarta-feira, junho 27, 2007

O mérito

Diz a senhora ministra que voltaria a tomar as mesmas medidas mas tentaria evitar os resultados perversos delas resultantes. É pena que a sua equipa não seja capaz de análise prévia dos problemas. Já lá para trás recomendei umas aulas de Área de Projecto.

Naturalmente que a questão não está nesta infantil precipitação. Longe disso. Na sua frente estão os cifrões e o absoluto desprezo pelas pessoas e pela qualidade da ensinança. Vem isto mais uma vez a propósito deste infâme concurso para titulares de quê, no seguimento da absurda divisão estabelecida na carreira docente.

Muitas perversidades daqui resultam mas uma que me mói, me incomoda, me enraivece é a que atira para o limbo dos definitivamente excluídos alguns colegas com mais de trinta anos de serviço que, por não desempenho de cargos neste período, não atingem os 95 pontos.

Exponho o caso de uma colega que convenci a concorrer. Triste, chocada com tudo isto, dizia-me para quê concorrer se não tenho os pontos! Esteve nestes sete anos sempre ao serviço dos alunos na escola e, nos cinco anos de registo de assiduidade, apresenta dois anos com três dias de falta e três anos com zero dias de falta.

Ainda sou dada a algumas ilusões. Estava na secreta esperança de que a senhora ministra emendasse a mão. Já que outras condições foram alteradas a meio do campeonato, estava a tempo ou de baixar para 92 o obsceno limite ou de atribuir pontuação extraordinária àqueles professores que todos os dias, ao longo de todo o ano lectivo, trabalharam o melhor que puderam e souberam com os seu alunos. Aos zero faltas.

Este seria um merecido reconhecimento da qualidade, da força, do ânimo. Os alunos desta professora nunca ficaram "pendurados", ninguém teve que a substituir. Ela lá estava disponível para a tarefa exigente, desgastante, tantas vezes tão difícil.

Ignorei essa macacada do prémio. Mea culpa. Devia ter tomado as necessárias medidas para candidatar esta professora. A ignomínia mantinha-se quer para esta professora quer para outros em circunstâncias semelhantes mas eu sempre teria ficado um pouco menos enraivecida.

segunda-feira, junho 25, 2007

Matrículas - nem simplex, nem gratuitas

Lá me dei ao trabalho de ler o Despacho de 11 de Junho de 2007 que, entre outras coisas, visa trazer simplificação de procedimentos para matrícula e renovação de matrícula.

No ponto 2.11 diz-se: no ensino básico a renovação de matrícula realiza-se automaticamente.

Ingenuamente eu até estava a pensar que assim iria ser - vi ao longo do ano os esforçados directores de turma a digitalizarem todos os dados dos alunos, a conferirem em reunião com os encarregados de educação os dados introduzidos, tudo preparado para o simplex. Ilusão de alma.

Hoje vi filas enormes de alunos à espera de comprar pela módica quantia de 15 euros o habitual envelope castanho, vi outros desesperados por não disporem do dinheiro. Nas costas do envelope lá segue um rol de papelada a apresentar e, embora tenha visto um director de turma a explicar aos alunos que, enfim, só terão de trazer aqueles documentos no caso de ter havido alterações, estou a imaginar a barafunda que tudo aquilo irá causar nas famílias.

É de hoje para amanhã e há que trazer três fotografias actuais - custo a acrescentar aos 15 euros (desconto para irmãos no agrupamento, cada um paga "apenas" 7.5 euros). Até os boletins de vacinas, verificados há pouco em sede de campanha de vacinação na escola, vão de novo na lista.

No despacho não vi indicado para esta renovação normal qualquer pagamento. Mas lá que é cobrado, é.

Numa zona altamente carenciada, com o apregoar da gratuitidade do ensino público, engulo mal tudo isto.

Em muitas destas famílias qualquer euro faz falta. Dei conta disso no post A Cidade - crimes e escapadelas de 20 de Junho. Conto outra significativa história.

Há uns anos, duas turmas, por trabalho desenvolvido na então chamada área escola, ganharam, como prémio atribuído por uma editora, uma visita à Eurodisney. Avião para lá e para cá, estada em hotel de quatro estrelas na zona, um luxo. Chegou-nos a notícia já depois de terminadas as aulas. Foi difícil contactar os alunos e tratar da papelada.

Lá andamos de casa em casa, de barraca em barraca. Numa destas a aluna tinha o BI caducado. Falámos à mãe na urgência de refazer o BI da filha para que daí a dois dias comparecesse com ele na escola para organizarmos todo o processo. Abanou-nos afirmativamente a cabeça. No dia aprazado não apareceu. Por entre os comentários de pais negligentes, gente preguiçosa e desinteressada voltámos à barraca. Os olhos da mulher explicaram-nos tudo o que não tivera coragem de nos dizer. Lá sacamos dos bolsos os escudos necessários para a deslocação a Lisboa, a compra dos impressos e as fotografias da ordem. No dia seguinte à tarde tínhamos o BI renovado na mão.

A absoluta falta deste (pouco) dinheiro privaria a aluna de participar nesta viagem que também ela tinha ganho.

Este ensino obrigatório gratuito tem muito que se lhe diga. E quanto a igualdade de oportunidades estamos conversados.

PS. Nunca consegui informação sobre a utilização desta quantia arrecadada nas matrículas pelo que disso não posso dar parte.

sexta-feira, junho 22, 2007

Liberdades

Quando o blogger António B. Caldeira - Do Portugal Profundo - é, por essa sua condição, perseguido criminalmente pelo Sócrates peripatético (ver meu post de 14 de Abril), nenhum outro blogger pode afirmar-se livre.

E eu, que quero defender a minha liberdade de expressão, não posso tolerar quieta esta torpe manobra de intimidação, de supressão das liberdades.

Manifesto ao António Caldeira total solidariedade.

Admito o meu reduzido préstimo mas cá estarei para o que der e vier.

Nota. A minha azelhice não permitiu fazer o link para o peripatético mas está logo abaixo do texto Má memória que aparece na ligação.

quarta-feira, junho 20, 2007

A cidade - crimes e escapadelas

Cidades

A cidade

tem uma belíssima luz sobre as colinas.

Tem ruas estreitas e íngremes, avenidas largas, terreiros grandes.

Tem jardins verdes e parques floridos. Um castelo ali ao cimo e palácios dispersos.

Tem varandas forjadas com ferro e sardinheiras, telhados com clarabóias, frontarias com azulejos bonitos.

Tem casas, muitas casas, algumas degradadas, muitas muitas vazias.

E alguns de nós a viver em barracas

Tem coisas boas e más. É complicada.

A cidade

tem o toque dos sinos e o canto dos pássaros, o riso das crianças e as gargalhadas novas.

Tem buzinadelas, chiar de travões, gritos de dor, estouros de choques mortais.

Tem coisas boas e más. É complicada.

A cidade

tem frutos saborosos, hortaliças viçosas à venda na rua do bairro, na loja da esquina.

Tem fontes que jorram água tratada e chafarizes simpáticos que tratam as sedes.

Mas na minha casa ainda não há canos nem torneiras.

Tem coisas boas e más. É complicada.

A cidade

tem perfumes de terra molhada e de castanha assada misturados no ar.

Tem os gases dos escapes a entranharem-se nas narinas e, na beira do rio, um cheiro a esgoto igual ao que às vezes inunda a minha sala de aula no barracão de madeira.

Tem coisas boas e más. É complicada.

A cidade

tem calor e frio raramente excessivo.

Tem brisas meigas e, às vezes, ventos bravios que despenteiam, empurram e levantam as saias.

Tem chuvas brincalhonas que gostamos de apanhar na cara, no cabelo, nas mãos a caminho da escola.

Às vezes tem aguaceiros tão fortes que tranformam a minha rua em lama e fazem sair um exército organizado de bacias e baldes para impedir a inundação lá em casa.

Tem coisas boas e más. É complicada.

A cidade está longe de nós que vivemos no subúrbio.

Graças ao Centro Nacional de Cultura e a este amável convite do senhor Presidente pudemos visitá-la mais duas vezes. De outro modo a cidade custa-nos uns quantos euros de que raramente dispomos. Assim, vamos contando, a maioria de nós ainda pelos dedos, as vezes que mergulhámos nela.

A cidade é para nós distante e estranha.

Mas a cidade e os seus arredores têm muita gente a andar e a correr, a viver e a pensar. Por isso, um dia vamos pensar tão bem que vamos resolver as coisas más e tornar simples o que parece complicado.

E não vamos mais ser estranhos à cidade.


Há uns anos atrás, uma das minhas turmas participou num programa de visitas à cidade do Centro Nacional de Cultura. Foi depois convidada para uma recepção na Presidência da República que juntaria as turmas das diversas escolas que tinham entrado naquele programa.Tínhamos trabalhado os sentidos e, com os alunos, escrevi este texto que representou a escola. Não representou, afinal, os meus alunos, que esses, tal como eu, foram proibidos pela gestão da escola de ir até Belém, de percorrer mais uma vez a cidade.

Mas não é esse triste episódio criminoso que me interessa esmiuçar agora.

Agora é tempo de eleições para a autarquia de Lisboa e chamo o texto para chamar a atenção para este assunto - a gente nova e a cidade.

É verdade que o preço dos transportes impede os jovens de se apoderarem da cidade. Os meus alunos , que vivem paredes meias com Lisboa, não conhecem a cidade. Sublinhei porque esta é uma realidade ignorada. E, naturalmente, aqueles poucos que têm a sorte de numa parte das férias acompanharem sobretudo as mães aos empregos em Lisboa distinguem-se imediatamente - essa experiência acrescenta-lhes a sabedoria. Ainda hoje no autocarro em que circulei na cidade, pela uma da tarde, viajavam oito passageiros. Nenhum deles jovem. Uma tristeza, um desperdício. Há cidades na Europa onde o transporte é gratuito para os mais novos e isso conduz a um reforço de cidadania, ao alargar das aprendizagens.

É verdade também que, quando crescem, muitos deles vêm trabalhar para Lisboa mas não podem instalar-se na cidade. Os preços proibitivos dos alojamentos obriga-os a manterem-se na casa clandestina do subúrbio, apesar de também já cara. Uma especulação conduz à outra. E ali, por um barraco discretamente construído numas traseiras, feito de tijolos de humidade e mofo, paga-se 300 ou 400 euros de aluguer. Sem recibo, claro. E com a cidade esvaziada.



segunda-feira, junho 18, 2007

Valha-me santo Alzheimer!

Leio e ouço por todos os lados intervenções de indignação relativas ao triste caso da professora de Cacia que recentemente faleceu depois de, padecendo de grave doença oncológica, ter sido obrigada pela junta médica a regressar ao trabalho em esforço penoso. E a indignação está voltada contra uma junta médica incompetente, criminosa, contra o Ministério da Educação avalizador destes actos, contra o Estado que sabe-se lá o que é. Longe de mim pretender defender quer uma quer outros. Que a família seja indemnizada pela perda, pelo sofrimento, pela raiva.

Mas lá que ando perplexa, ando.

Percebo que a professora, exactamente por estar mal, entendesse necessário cumprir aquela determinação, não fosse ver-se castigada e privada de ordenado ou parte dele num momento em que mais precisaria do dinheiro para tratamentos e apoio. E naturalmente que não estaria em condições físicas e psicológicas para aguentar uma batalha legal contra uma tal determinação.

O que não percebo é que os orgãos de gestão da sua escola tivessem dado seguimento à determinação da junta médica, permitindo que a professora retomasse as suas aulas. Julgo que competiria a estes orgãos opor-se a esta sádica decisão. E caberia a todos os professores da escola impedir este final de vida atormentado. Caberia aos funcionários e aos alunos. Caberia aos pais e encarregados de educação.

Andou um mês a tentar dar as aulas, a desmaiar nas aulas. Como foi possível?

Onde estão as PESSOAS?

Perderam todas a capacidade de pensar, de sentir, de actuar, de se relacionar?

Os gestores geriram, os professores professaram, os funcionários funcionaram, os alunos alunaram, os pais/ees trataram das suas vidinhas. Foram todos bons robots.

Todos esmagados por este tempo de medo?

Tristes lições, pobres estudantes!

Planos educativos, projectos curriculares, blá, blá, blá.

Para que serve a escola?

Valha-me santo Alzheimer que para aqui ando perdida, confusa, baralhada, incapaz de entender! Vamos ser titulares de quê?


segunda-feira, junho 04, 2007

Vagas por um canudo para "titulares de quê"

Nº 3 do artº 26 do Estatuto da Carreira Docente aprovado em 2007:

A dotação dos lugares da categoria de professor titular corresponde, por quadro de agrupamento ou de escola não agrupada, a um terço do número total de lugares do respectivo quadro.

Este é o texto.

Três vagas para dezoito professores do quadro da escola num dado departamento - esta é a dotação.

A minha matemática está por certo ultrapassada. Alguém me explica como é que três corresponde a um terço de dezoito?

Depois de na pomposa introdução ao Estatuto da Carreira Docente se ler que a avaliação se convertera num simples procedimento burocrático sem qualquer conteúdo, vem agora impedir-se ou permitir-se candidaturas com base no satisfaz ou no "bom" nesse processo atribuídos; "avaliam-se" agora os professores, não pelo trabalho que efectivamente desenvolveram com os alunos, mas pela quantidade de cargos que desempenharam, não interessando para o caso o modo como os desempenharam. Cheia de conteúdo, esta avaliação pós-moderna.

Depois de na introdução se manifestar estranheza por que tenham chegado ao topo da carreira "docentes que permaneceram afastados da actividade lectiva", premeia-se exactamente esse afastamento e punem-se aqueles que estiveram com os alunos.

Depois de na introdução se dizer que não estavam criados incentivos a que os docentes aperfeiçoassem as suas práticas pedagógicas, impedem-se agora estes que estavam nas práticas pedagógicas de aceder ao concurso e/ou às vagas criadas, incentivando, isso sim, os "funcionários" fautores ou colaboradores da degradação que se foi sentindo.

Depois de tudo isto a que fomos assistindo, chega a cereja no bolo. A miserável dotação de lugares que vai deixar de fora muitos milhares de professores e vai permitir atropelos de toda a ordem.

Aquele cavalheiro do 8º escalão, especializado em conquistar cargos, em inventar projectos sem que nunca o seu sucesso tenha sido avaliado, em processar disciplinarmente colegas a pedido da hierarquia chegando para tal à torpe falsificação de documentos, esse artista avança airosamente para titular de quê, ultrapassando professores posicionados no 9º ou no 10º escalão, que nunca se dedicaram a estas manobras. As ditas hierarquias abstenho-me de as comentar que fica à vista que há DREN por muito lado.

E diz-se que esta brincadeira dos titulares de quê "permitirá dotar as escolas de um corpo de docentes com mais experiência, mais formação e mais autoridade". Nanja dúvida!

E os professores que ficam fora desta designação de titulares de quê não se indignam propriamente por isso. Indignam-se por, desta forma matreira, lhes liquidarem expectactivas de progressão na carreira com a natural compensação económica; outros, em fim de carreira, depois de mais de trinta anos de trabalho com os alunos, por os considerarem não aprovados, excluídos. Para os do 8º e 9º que não puderem agora concorrer ou ser providos acena-se-lhes com o futuuuuuuuuuuuuro. Para os do 10º que não têm os 95 pontecos - incineradora com eles.

Tal como todos os outros trabalhadores portugueses, os professores são, em termos europeus, dos professores que mais baixos salários ganham. Em recentes análises comparativas conclui-se que o salário médio português é inferior a setecentos euros, cerca de metade do do país que imediatamente nos precede. Baixar ainda mais o nível de vida das pessoas é absolutamente indigno.

Se o erário está curto, então não se enverede por otas faraónicas, elefantes brancos chamados de alavancas (de coisa nenhuma). Se é necessário pôr em marcha obras públicas que dêem um pouco de oxigénio a alguns sectores de actividade, então que se recupere habitação de modo a alojar com dignidade os milhares de famílias que vejo à minha volta a viver em barracas com baixadas de luz e sem água canalizada nem quaisquer outras infra-estruturas básicas. Que se retirem as mordomias desvairadas saídas dos fundos públicos de que alguns usufruem. Que se faça uma cobrança equitativa de impostos.

Não posso entender a tese adoptada pelos sindicatos de que é impossível avançar com providências cautelares para os concursos um a um. Por que não? Se as vagas não correspondem ao legalmente estabelecido por que não agir?

O concurso é de escola? Essa agora! Foi a escola que definiu as vagas? Não me espantaria. No meu agrupamento, apesar de a escola ter sítio na net, as vagas não foram aí publicitadas. Remete-se para o placard da sala dos professores. Quer tornar-se a coisa muito caseirinha. Tudo muito cá para nós que ninguém nos vê nem nos ouve.


domingo, junho 03, 2007

Os erros e os anões, as provas e as aflições

6. A mai da Ana non aquerdita em criaturas da fatazia pk so aquerdita nu k vê e nunca viu o meu avô k era anon i me cota-va estorias i afinau era uma criatura fatástica. Eu até sou pekenino cumo el. Á anõis e anõis!

Nas provas fantásticas do 4º ano que eu classifiquei apareceu esta magnífica resposta. Há erros e erros!

Lembro-me do Ricardo, aquele aluno sobredotado que mal conseguia ler em voz alta e, de esguelha, num ápice, percebia os textos e era capaz de dissertar sobre eles. Da escrita chegara-me com umas noções vagas, bem pior do que no exemplo acima. Mas entendia-se com as palavras. Desmontava-as, remontava-as, buscava sentidos e brincava com elas e comigo. Discurso directo/indirecto, activa/passiva, nada tinha dificuldades. Excelente conversador e desconversador. Magnífico na matemática. Ainda a professora não terminara a explicação de uma matéria, já ele compreendera e ajudava a que os outros compreendessem passando a aplicações imediatas. E tinha na aula de matemática o estatuto de "professor auxiliar", única forma de aguentar colaborante o tempo de aprendizagem dos outros. Embora alguns professores nunca o tivessem visto, não por falta dele mas porque não tinham olhos, lá fez com êxito o 2º ciclo. Depois retiveram-no e retiveram-no e entretiveram-no, entretiveram-no em unidades capitalizáveis. É sempre preciso arranjar clientes para estes projectos.

Lembro-me do Hélio, 14 anos, escolaridade vagabunda resultante de nomadismo. Integrado numa turma com projecto danado, sem pés nem cabeça. Carregava o rótulo de atraso mental que lhe foi retirado no final da primeira semana de aulas. Leitura e escrita ainda hesitantes mas fascinado pelo mundo. Disse-lhes no início do ano que à segunda-feira, à hora de almoço, estaria na biblioteca disponível para trabalhar com eles. O Hélio apareceu-me todas as segundas-feiras, sem uma falha. Estudávamos tudo e íamos avançando.

Este ano é a Susana. A mais culta da turma, com vocabulário largo, inferências imediatas, argumentos prontos e desastrosa escrita. Esta diz que nunca lhe explicaram que devia querer escrever sem erros. Os tabefes que apanhou no 1º ciclo visavam mantê-la sentada. Vida complicada que, aos 10 anos, traz pesadelos e sabedoria. Está agora preocupada com a escrita escorreita e eu preocupada não vá essa, agora sua, preocupação tornar-se excessiva e castrar-lhe a cabeça e o texto.

Ainda há o Kalalory. Um angioma no pescoço, tumor de razoável dimensão e ainda não operável, alvo da chacota quase universal, conduziu-o para a margem. Os berlindes e as brigas ocuparam-lhe o tempo. Voltou há pouco a aparecer nas aulas. Dia de texto escrito. Pus-lhe a folha e a caneta diante do nariz. Encheu as duas páginas. O trabalho mais conseguido da turma. Não sei se alguma vez fará prova de aferição.

Quando abri este blog, esforcei-me por semear umas falhas ortográficas pelos textos. Em troca de comentários já lá muito para trás - post Habilitações de 11 de Dezembro -, defendi a minha forma de encarar este assunto. A escrita é uma roupagem da língua. Não é a língua. E quem escreve com erros ortográficos não pode sentir-se interditado para a escrita. Foi por acção do meu filho mais novo que me vi obrigada a refectir sobre isto. Teve uma excelente professora nos quatro anos do 1º ciclo. Não dava erros mas divertia-se com eles em todos os recados que deixava para a família. Assinava sempre (ainda hoje assina) filho purdígio.

Escreve-se com erros por razões diversas.

Há as fracas iniciações à escrita. Aqui há, sem dúvida, mau trabalho dos professores do 1º ciclo.

Mau trabalho porque o professor não sabe fazê-lo, está mal preparado para a tarefa ou não acha importante dedicar-se-lhe.

Mau trabalho porque o professor tem a seu cargo um número excessivo de alunos, às vezes de anos de escolaridade diferentes, o que o impede de avançar bem com todos.

Mau trabalho porque, por aquela turma de 1º ano, passaram dois ou três professores, cena que se repetiu nos anos seguintes.

Há as disgrafias de que algumas pessoas são portadoras e que lhes limitam esta competência. E se antes da massificação da escolaridade este problema se colocava de modo esporádico, agora tem mais elevada frequência.

Se os alunos chegam ao 2º ciclo com dificuldades na escrita das palavras, o peso da correcção ortográfica não pode dominar o trabalho dos professores. Há uns anos, abordei no início do ano lectivo um jovem desconhecido na sala dos professores. Disse-me que era de Educação Musical, tinha acabado a sua licenciatura com estágio incluído. Comecei a teorizar sobre a importância da sua disciplina e ele explicou-me que pouco iria fazer nesse campo. Abriria a lição, escreveria o sumário e teria depois de andar de mesa em mesa, caderno a caderno, a verificar a correcção da cópia que os alunos teriam feito do quadro. Isso ocupar-lhe-ia quase todo o tempo da aula. Fiquei aterrada e tentei anular esta visão do que lhe competia.

Os professores não podem transformar-se em meros caçadores de erros ortográficos.

Compete na verdade aos professores de todas as disciplinas trabalhar as palavras. Desmontar os termos específicos das suas matérias, fazê-los utilizar em contextos diversificados e, sobretudo, no oral. Isso conduzirá a que os alunos os apreendam e os venham a dominar, organizem as ideias, a fala e, consequentemente, a escrita. A estreita preocupação com a ortografia liquida este trabalho prévio e impede avanços e aprendizagens.

Referindo-se ao facto de na primeira parte das provas de aferição de língua portuguesa os erros não descontarem, ouvi, no seu sermão dominical, o professor Marcelo dizer por isso é que os alunos chegam como chegam às universidades. Sem dúvida para rir, uma introdução aos Gatos Fedorentos que lhe sucedem no horário. Se não estivéssemos em comunicação unívoca perguntar-lhe-ia como saem os alunos da sua faculdade. E o meu problema com os licenciados da sua faculdade passa bem longe da ortografia. Desmontei, num texto lá para trás - post MJ e ME - Olha que dois! de 16 de Janeiro -, uns artigos de um decreto-lei que não peca por falhas ortográficas. São outros os pecados.

Claro que a construção daquelas provas de aferição dá azo a comentários destes. Nenhum destes comentadores analisou as provas duma ponta à outra e as cotações atribuídas. Se o tivessem feito, as observações seriam de outro teor. E estou para ver como introduz agora a senhora ministra os descontos para as falhas na escrita na primeira parte da prova. Julgo que irá dar para rir, mas rir faz bem.

PS - Os nomes dos alunos são pseudónimos embora eles não sejam pseudopessoas.