Escola

A minha fotografia
Nome:

M. Eugénia Prata Pinheiro

sábado, janeiro 26, 2008

Ligações definitivamente perigosas

Tudo acabado de confeccionar.
Grelhas para todos os gostos e outra papelada.

No endereço diz Avaliacao mas os DOCENTES aparecem assim, em maiúsculas.
Ganharam importância?

O vai-vem das recomendações...

Cá estão elas, as recomendações do faz de conta Conselho Científico. A senhora presidente, a única que até aqui o "compõe", esforçou-se e saíu o documento sebastiânico, envolto em nevoeiro.

Propõe, e bem, muuuuuita clareza no processo. Está à vista.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Andamos entretidos

Andamos entretidos, banzados com estas habilidades legislativas, vamos brincando ou barafustando com a regulamentação que sai/não sai, com os instrumentos (valha-me santo Alzheimer) de medida que esperam ordens de um conselho científico tão diáfano que não se vê, não se lê, não se sente, não se ouve... e esquecemo-nos de pensar no real objectivo desta avaliação de desempenho - exclusivamente poupar uns cobres ao erário.

Nada disto tem por objectivo melhorar o trabalho nas escolas. Pelo contrário. Piora. Anula o gozo que devíamos retirar do que vamos conseguindo fazer com os alunos, castra a iniciativa de ir por ali ou por acolá não vá o atrevimento atirar-nos para fora da grelha, congela a possibilidade de trabalho de equipa não vá o/a colega comer-nos (valha-me o santo Alzheimer) as papas na cabeça... e lá se vai o bom, o escalão p'ró galheiro.

Como em qualquer outra profissão, nas escolas há professores de jeitos variados, uns mais hábeis que outros na relação com os alunos, uns mais sabedores que outros. E seria na interacção tranquila entre estas gentes que poderia encontrar-se progresso. Seria do ir retirando conhecimento dessa variedade que os alunos iriam aprendendo e se iriam construindo.

Estava bem que as pessoas fossem subindo na carreira pela passagem de tempo no trabalho efectivo com os alunos. Estava bem que as pessoas fossem dando conta das suas necessidades de formação e que lhes fosse providenciada essa formação, quer no trabalho com os pares na própria escola, quer em acções promovidas pela tutela. Estava bem que o Conselho de Turma fosse o centro do trabalho a desenvolver com os alunos, com cada aluno, ocupando-se menos dos papéis e mais das pessoas. Estava bem que os departamentos e os Centros de Recursos fossem um efectivo apoio ao desenvolvimento desse trabalho. Estava bem... estava bem...

Estava bem termos o nosso canto preparado para fumarmos o nosso cigarrito ... (será que vai aparecer na grelha Fumador - 20 pontos, Não fumador + 50 pontos? ai, ai, ai, ai, valha-me o santo... nestes trinta e cinco anos de serviço sempre a fumar estou banida).

Concluindo, esta "avaliação de desempenho" é um atentado ao nosso discernimento.

Mas está tudo na normalidade, disse agora mesmo a senhora ministra.

Disse, está dito e ela é que sabe. E lá vamos...

terça-feira, janeiro 22, 2008

Quer ser mesmo professor?


Aqui fica o Decreto Regulamentar sobre o exame de entrada para a profissão.

Embora duvide da bondade destas provas para seleccionar os que têm as melhores condições para exercer a profissão, compreendo a tentativa.

Há tanto curso por fax, tanta concepção que subentende a escola como um sítio ideal desde que por lá não haja alunos, tantos que gostariam de ter os alunos embalsamados, tantos que fazem tudo para conseguir escapar às aulas, aos alunos!

Maus professores andam por aí e não estarão apenas entre os mais jovens. Maus professores são os que não respeitam os alunos. E nunca um acontecimento como este que esta notícia relata deveria ser possível.

Agora passarão pela malha os que querem entrar ou os que estão há menos de cinco anos na profissão. E a malha saberá guardar os que são capazes e querem passar conhecimento? Os que respeitam os alunos? Os que sabem relacionar-se com as famílias? Os que estão disponíveis para aprender com a experiência e com os pares?

A ver vamos.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Não estão todos de cócoras

Agora numa escola do norte toma-se posição sobre o desnorte da regulamentação da avaliação do desempenho. Furtei a citação do blogue "a educação do meu umbigo". Está aqui.

Noutras escolas dão-se cambalhotas.
Pois, os tais resultados perversos. É a falta de projecto. Avaliação insuficiente para o ME.

sábado, janeiro 19, 2008

Gente que pensa.

Transcrevi do terrear.blogspot.com
O autor omitiu o nome da escola que tem este excelente Conselho Pedagógico. Percebemos a discrição.

Uma Proposta e uma deliberação unânime de um conselho pedagógico a que me orgulharia de pertencer

Considerando:
a. Que número 1 do artigo 34º do Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro, estabelece que as escolas têm 20 dias úteis - isto é, até 11 de Fevereiro - para elaborar e aprovar, em Conselho Pedagógico, os instrumentos de registo de avaliação de desempenho dos professores, tendo em conta as recomendações que forem formuladas pelo Conselho Científico para a Avaliação de Professores, nos termos do nº 2 do artigo 6º do mesmo diploma;

b. Que foi aprovado, em 12 de Dezembro de 2007, o decreto regulamentar que define a composição do referido Conselho Científico, cuja publicação ainda se aguarda, e que, até esta data, não foram disponibilizadas as recomendações que permitam realizar o trabalho definido no ponto anterior;

c. Que, nos termos do mesmo artigo 34º, também até 11 de Fevereiro, o Conselho Pedagógico tem de rever o projecto educativo e o plano anual de actividades de modo a definir objectivos e metas, enquanto o presidente do Conselho Executivo elabora os indicadores de medida que, em conjunto, constituem as referências da avaliação de desempenho dos professores;

d. Que, eventualmente, os Conselhos de Turma, devem rever, também até 11 de Fevereiro, os objectivos fixados nos projectos curriculares de turma, a fim de dar cumprimento ao disposto no nº 2 do artigo 8º do Decreto Regulamentar nº 2/2008;

e. Que, nos termos do nº 2 do artigo 13º deste Decreto Regulamentar, os objectivos e metas referidos devem ser considerados pela comissão de coordenação da avaliação de desempenho, a criar no âmbito do Conselho Pedagógico, para o estabelecimento de directivas visando uma aplicação objectiva e harmónica do sistema de avaliação;

f. Que, as referências definidas nas alíneas c) e d), bem como as directivas da aliena e), são imprescindíveis para verificar até que ponto e de que modo os avaliados atingem os objectivos individuais a que se propõem, os quais, nos termos do 2 do artigo 34º do Decreto Regulamentar citado no ponto 1, devem ser elaborados, até 25 de Fevereiro, por cada professor e acordados com os avaliadores (coordenador de departamento curricular e presidente do conselho executivo);

g. Que ainda se aguarda pela publicação das grelhas de avaliação previstas no artigo 20º do Decreto Regulamentar nº 2/2008, as quais carecem de desenvolvimento pelas escolas para definição de descritores dos níveis de desempenho;

h. Que se aguarda a publicação de um despacho que permita a delegação de competências de observação de aulas por parte de outros professores titulares, nos termos dos números 2 e 3 do artigo 12º do Decreto Regulamentar nº 2/2008;

i. Que, ainda neste ano lectivo, o presidente do Conselho Executivo tem de calendarizar, com a obrigatória implicação de cada professor e do coordenador de departamento curricular, a observação de duas aulas, correspondendo cada uma a uma unidade didáctica diferenciada, o que face aos pontos anteriores, irá ocorrer no 3º período;

j. Que, em consequência dos pontos anteriores, a melhoria das aprendizagens e dos resultados escolares dos alunos vai passar, inevitavelmente, para segundo plano, uma vez que o tempo disponível dos coordenadores de departamento curricular, do presidente do Conselho Executivo e dos professores vai ser usado para a concepção e desenvolvimento do processo de avaliação de desempenho;


Propõe-se o seguinte:

1) Que o Conselho Pedagógico e o Conselho Executivo proponham ao Ministério da Educação, através da Direcção Regional de Educação do Alentejo, que seja adiada até ao final do presente ano lectivo a realização das acções previstas no 1 do artigo 34º do Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro;
2) Que as acções previstas no 2 do artigo 34º do Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro, sejam realizadas até 31 de Outubro de 2008;
3) Que a calendarização da observação de aulas e o desenvolvimento do processo de avaliação de desempenho ocorram a partir de Setembro de 2008.


Esta proposta foi apresentada pelo Coordenador do Departamento de Ciências Sociais e Humanas na reunião extraordinária do Conselho Pedagógico, realizada no dia 17 de Janeiro de 2008. Após discussão, a proposta foi aprovada por unanimidade.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Ai, ai, ai, escolas

Interessantes análises do projecto de lei sobre a gestão das escolas.

Aqui ficam para os interessados.

sábado, janeiro 12, 2008

Petição on-line

Corre esta petição visando o prolongamento do tempo de discussão do projecto de lei sobre autonomia e gestão das escolas. Leia e assine se assim entender. Arranje também tempo e paciência para ler o projecto.


sexta-feira, janeiro 11, 2008

Obrigada, PGR

Temos quadros novos.

Foi preciso passar um período inteiro às aranhas, reclamar, barafustar, pôr os pés à parede, apelar por aqui ao PGR... mas, finalmente, TEMOS QUADROS NOVOS.

Não, não são interactivos. Interactivos, como já disse lá para trás, acho que há um mas desligado, simulacro de arte pós-moderna.

Estes que chegaram são de matéria plástica para escrever com caneta própria gentilmente distribuída pelo funcionário da reprografia com o aviso imediato de que, quando esgotada a tinta, nos fornecerá outra mediante entrega da esvaziada. E assinamos a recepção. Tempos de recessão. Era assim nas famílias antigamente - dou-te um lápis novo se me mostrares o velho já sem dimensões para escrita. Sem desperdício. Aqui poupa-se de um lado para provavelmente esbanjar doutro.

Giz era o único material fornecido gratuitamente aos professores. Era barato, faziam a franqueza. Agora as canetas gordas ai, ai, ai. Não estava orçamentado...

De modo que cá andamos a guardar ciosamente as canetonas não vá alguém, mesmo que por distracção, deitar-lhes a mão. Lá saíriam uns cobres do bolso próprio, já vítima de congelamentos e inusitadas despesas. E cá ando a treinar a escrita que a coisa é escorregadia.

Sempre experiências novas, sempre a aprender...

Ai PNL

Proíbe a Biblioteca da minha escola que os alunos requisitem livros para ler nas férias. Alunos que na maioria dos casos passam as férias (Natal, Páscoa e grandes) enfiados em casa, confinados ao subúrbio em que habitam, não podem levar, para ler nesses tempos de desocupação, livros da biblioteca da escola.

Manifestei a minha absoluta discordância com tal proibição em reunião de departamento, inquirindo das razões para tal medida.

Respondeu-me a coordenadora (por acaso, ou não por acaso, simultaneamente coordenadora da biblioteca, digo, Centro de Recursos) que se tratava de impedir perdas.

Que perdas? Admitindo que três ou quatro livros não regressassem muitos seriam lidos, ocupariam tempos quer dos alunos quer das famílias. Há perdas ou ganhos? Tanto dinheiro a entrar do Plano Nacional de Leitura e vence este argumento mesquinho.

Odeio a mesquinhez. Fico irritada, claro que fico irritada.


Formação - pague e recebe-a, talvez por fax

Apareceu na sala de professores um mapa de acções de formação creditadas promovidas por um dos centros de formação da área. Muitas sobre o uso das tecnologias. Para as frequentar paga-se, por agora, 50 ou 70 euros. Um maná. A saber para os bolsos de quem. E como sem créditos lá se vai a avaliação, é fartar vilanagem.

O que interessa? Que tenhamos os conhecimentos, que sejamos capazes de os usar com vantagens para as aprendizagens dos alunos, independentemente do modo como adquirimos esses conhecimentos? Não, não. O que interessa é que paguemos. Podemos ter na escola um colega especialista num domínio e pronto para nos transmitir o seu conhecimento. E formação nestes termos, que permite troca imediata de saberes com referências ao trabalho com as próprias turmas, com os alunos comuns, mexe natural e favoravelmente com o "clima" na escola, com as relações entre as pessoas. Mas não interessa. Não dá créditos. Créditos só pagando.

Fui participando ao longo dos anos em acções de formação. Fui, sem dúvida, aprendendo com a informação que recolhia e com a troca de experiências que facultavam. Recordo uma das que me foi mais útil. Talvez em 1984 ou 85, arranque do Projecto Minerva, uma colega de matemática, de saudosa memória porque cedo nos deixou, decidiu abrir umas horas de trabalho na escola para aprendizagem de programação em basic para os professores e alunos interessados. Era uma escola do 2º ciclo. Inscreveram-se uns vinte alunos, uma velha professora de matemática e eu. Trabalhávamos com os spectrum. Programávamos para achar máximos divisores comuns, menores múltiplos... por aí fora de acordo com o programa de matemática dos alunos. Divertimo-nos juntos e aprendemos. Lembro-me de, no final do ano, já período não lectivo, ter preparado para as colegas de português uma exploração de um texto do Eça com a dita programação - tira adjectivos, troca cores... uma brincadeira para tirar o medo do bicho/computador. Ninguém nos deu horas, ninguém nos pagou nem pagámos a ninguém. Ninguém me deu créditos mas aquela linguagem basic ainda hoje me serve. Aqui há uns anos, estando a usar um programa para construção de horários, quando os colegas (da área das ciências mas sem aprendizagens de programação) consideravam impossível uma dada manobra, eu pude consegui-la recorrendo às luzes daquela longínqua aprendizagem.

Paguei uma acção de formação na Fac. de Letras para actualizar conhecimentos na minha área dada por uns especialistas na linguística aí professores. Eles estavam fora das suas horas de trabalho (e eu também). Os créditos foram inúteis porque estava já no jurássico 10º escalão. As aprendizagens foram úteis. Paguei quando me apeteceu ir aprender como funcionava o alemão. Não havia acções de formação do ME que me permitissem esta aprendizagem. Não ganhei créditos, nem crédito, mas aumentei a minha sabedoria, aumentei o meu conhecimento de que pouco sabia. Pago os livros que me apetece comprar, as idas ao teatro ou ao cinema, as entradas nos museus, as viagens... a minha autoformação.

Diz no Estatuto da Carreira Docente que o acesso à formação contínua é um direito dos professores, que a tutela deve providenciar essa formação. Não tem cabimento qualquer pagamento para estas acções promovidas pelos Centros de Formação do ME.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Avaliação do desempenho blá, blá, blá.

Fica aqui a ligação para o Decreto Regulamentar 2/2008 sobre o sistema de avaliação do desempenho do pessoal docente.

Regime jurídico de autonomia, administração e gestão...

Está publicado (já funciona a ligação) o projecto de Dec-Lei que estabelece o Regime Jurídico de Autonomia, Administração e Gestão dos Estabelecimentos Públicos de Educação Pré-escolar e dos Ensinos Básico e Secundário.

Diz-se que está em consulta pública.

Embora ainda não tenha tido nem tempo nem paciência para o ler com atenção, já percebi por que me cheira a mofo e por que ninguém na minha escola fala dele.

Não temos um director mas temos presidente do Conselho Executivo que é como se fosse. Eleição não teve à conta da instalação do agrupamento e blá, blá, blá. Já é também presidente do C. Pedagógico há uns largos anos. Já há anos que designa os coordenadores, designação às vezes disfarçada com eleição faz de conta. Nomeia assessores, distribui pelouros, cargos. Avaliação de resultados, nem vê-la mas faz de conta que há uma comissão para fazer a avaliação interna. Avaliação externa inexistente.

Transparência nos processos não há mas não estou certa que venha a haver com o novo regime. Ilegalidades vão-se fazendo mas ninguém pede contas. A Assembleia vai fazendo de conta que existe o que, desconfio, irá acontecer nos mesmos termos com o Conselho Geral que agora é proposto.

Mancha horária desestabilizadora, distribuição de serviço patética, organização de turmas ad hoc, aprendizagens frágeis.

Mudem-se os regimes, tanto faz, cá vamos andando... (soou-me a hino - lá vamos, cantando e rindo, guiados (?), levados (?)...)


quarta-feira, janeiro 09, 2008

Spin doctors

Aqui há uns anos todos os partidos com assento na Assembleia aprovaram lei definindo que as miseráveis pensões de reforma atribuídas a muitos dos nossos velhos concidadãos deveriam num curto prazo atingir o valor do salário mínimo devendo para isso ter aumentos anuais acima da inflacção.

Suponho que era primeiro-ministro o eng. António Guterres. Ou seria o José Manuel Barroso? Todos, de mão no peito, votavam para pôr termo àquela ignomínia.

Nestes últimos anos os aumentos atribuídos àquelas pensões nem mesmo a inflacção cobrem.

Mas é preciso que ninguém se lembre daquela lei e aqui entra a mestria dos doctors. O aumento este ano é mais uma vez abaixo da inflacção. Ora então monta-se a farsa em torno do pagamento dos retroactivos correspondentes a duas pensões. Vem dizer um secretário de estado, o batedor de serviço, que se vai fazer o enorme favor aos pensionistas de distribuir aqueles irrisórios quantitativos pelos doze meses do ano corrente, uns cêntimos a mais em cada mês. E tenta convencer todos, do alto da sabedoria que a sua juventude lhe confere, da bondade deste exercício contabilístico. Animam-se com isto as forças da oposição. Os partidos fazem sobre o assunto declarações inflamadas. Surgem parangonas nos jornais, intervenções nas televisões, debates muito participados nas rádios. E depois é o ministro que vem anunciar o recuo - pagarão os curtos euros por junto já em Fevereiro. E o primeiro-ministro apregoa, apoiando o recuo, que não tem um governo mesquinho, não quer ficar com o dinheiro de ninguém! Tão bons que são, tão preocupados com os pobres dos pobres! E a oposição, tão boa que é, conseguiu esta enoooooooooooorme vitória.

Enterraram a lei. Vivam os spin doctors.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Cemitérios e capelas mortuárias

Assim vamos - os professores vão fumar para o cemitério, as crianças vão para a capela mortuária cumprir as suas actividades de tempos livres. Tudo a cheirar a morto a bem da saúde e do erário.

Estas histórias tristes despertaram-me memórias de infância.

Fiz a escola primária no Porto, na Ordem da Trindade, uma daquelas ordens religiosas que, ocupando quarteirões da cidade, forneciam serviços diversificados aos espíritos e aos corpos - igreja, hospital, farmácia, escola, sopa dos pobres...

Da escola guardo espantosas recordações. Uma professora exigente distribuindo pancadaria de criar bicho com uma robusta palmatória. Um professor de canto coral que nos punha a cantar em latim para que, afinados, cantássemos nas missas de corpo presente dos Irmãos da Ordem que se finavam. Quando se tratava da morte de um Mesário, íamos mesmo ao cemitério acompanhar o funeral com o nosso Libera Me. Para a aula de canto levavam-se os ditados, com os erros destacados, presos com uma mola da roupa às costas. As manobras para diminuir o vexame levavam-nos a caminhar como sombras uns dos outros. A catequese decorria num corredor obscuro ao lado da igreja. A catequista era a grande amiga do senhor reitor e esforçava-se por me meter na cabeça que o bispo do Porto era Florentino de Andrade esforçando-me eu por que ela aprendesse que era António Ferreira Gomes, exilado pelo Salazar.

Acho que começaram aqui alguns dos meus combates. E alguns dos meus descréditos. Desacreditei da igreja. Desacreditei da escola - depois de quatro anos com aquela professora que muito me fez aprender, sendo a melhor aluna de entre os rapazes e raparigas que frequentavam a quarta classe, impediram-me o acesso aos exames porque tinha nove anos. A família fez diligências, o meu avô foi de avião (coisa cara e complicada na época) a Lisboa tentar convencer o ministro mas sem resultado. Repeti a quarta classe com a outra professora das raparigas que todos os dias fazia o favor de me perguntar se eu gostava mais dela ou da que me acompanhara nos quatro anos anteriores, ao que eu todos os dias respondia que gostava mais da outra, embora os voos da palmatória transtornassem com raiva aquele gosto. Percebi que os professores não são para "se gostar". No ano seguinte o ministro alterou a lei porque tinha uma sobrinha... Desacreditei daquele poder. A isto também ajudou a farsa eleitoral que envolveu a candidatura do Humberto Delgado. Fui ao seu comício na Avenida dos Aliados. A família dissera-me hoje não deves ir passear pela cidade, vens para casa direitinha logo no fim da escola que pode haver confusões na avenida. Sinal verde para a Avenida. Tinha oito anos e tinha de ver o mundo em volta.

Veio-me tudo isto à memória ao saber das crianças de Leiria enfiadas na capela mortuária para os tempos livres. Veda-se hoje às crianças o contacto com a morte mas dá-se-lhes depois o lugar do morto. Quando eu saía da escola e dava conta que estava um cadáver a ser velado na capela mortuária da Ordem, ia lá dar uma voltinha. Não seria mera curiosidade mórbida mas o modo mais rápido de saber da importância do "Irmão" para avaliar se no dia seguinte a aula seria substituída por missa e latinório, o que, devo dizer, proporcionava grande gozo. Estávamos todos juntos no côro da igreja, rapazes e raparigas, a assistir à encenação. E divertíamo-nos. Até deturpando o latim, fazendo traduções livres com sonoridade aproximada. Destas substituições gostávamos!

Não digo que rezasse para que morressem Irmãos e Mesários, não só porque nunca tive grande crença no poder da oração mas também porque ia sendo educada na defesa da vida. Hoje, em reunião de departamento, uma colega confessava que rezava para que os alunos difíceis faltassem à aula. Ao meu lado um colega sussurrou-me que em miúdo rezava para que faltassem os professores. Se fosse hoje abster-se-ia da oração porque na falta do professor apanharia com uma daquelas substituições que não têm graça (divina) nenhuma.

sábado, janeiro 05, 2008

Muito mau tempo

Recomeço complicado. Primeiro essa talibânica proibição do fumar. Foi-se a sala dedicada onde belos brainstormings eram possíveis (post Brainstorming de 27/02/2007 ). Lá fomos, no intervalo, fumar para o exterior. Ficámos pelo parque de estacionamento do cemitério. No cemitério decorria um funeral pelo que nos abstivemos de entrar. Seria o local ideal - nem "maus" exemplos para ninguém, nem queixosos à vista. E gratos por estes cuidados com a saúde do povo, lá regressámos às nossas salas cobertas por amianto, sem ar e sem luz. À hora de almoço, depois de, em cinco minutos, enfiar o conteúdo da minha lancheira, fui dar volta a pé pelo subúrbio. Ruas em péssimo estado, passeios inexistentes mas ar suficientemente livre para fumar. Quanto ao senhor director da ASAE, o senhor António Nunes, que saboreou a sua cigarrilha no casino e será agora o "justiceiro" aplicador das coimas aos prevaricadores, enquanto esse senhor não souber conjugar o verbo intervir (declarações que sobre o assunto prestou - assistiu e não interviu), não lhe intervejo grande futuro. Verdade que também não intervejo grande futuro para o comum das pessoas, dado este absurdo presente que vamos vivendo.

Neste primeiro dia de aulas de 2008, foram muitos os alunos da escola que ficaram privados de almoço na cantina. Os "avanços tecnológicos" têm destas consequências. Não sei como funciona o sistema informático que comanda as refeições e não fui capaz de responder às queixas dos muitos alunos que não conseguiram, com os seus cartões electrónicos, marcar a refeição. Dinheiro para carregar alguns cartões de forma a que pudessem, no bufete, comer qualquer coisa foi o que pude fazer por alguns. Um dia de excitação e fome.

Se pelos blogues a que dei volta se fala no projecto "inovador" para a gestão das escolas, na escola nem pio. E, francamente, só consegui dar volta rápida ao articulado que me cheirou a mofo. Tentarei ganhar paciência para lá voltar.

Soube hoje pela imprensa da abertura pela IGAI de inquérito à Escola Segura, inquérito que decorre de denúncias feitas pelo ex-coordenador do gabinete de segurança do ME. Anima-me não ter sido apenas eu a dar conta dos abusos de autoridade e ilegalidades que existiam (remeto para os textos Pano para mangas - escola segura de 09/01/2007 e Polis de 28/11/2007). Disse o senhor ex-coordenador ter alertado as hierarquias mas MAI, IGAI, PSP e GNR garantiram desconhecer os abusos pelo que nunca terá havido processos disciplinares.

É assim. Processos disciplinares são só para mim. Cá tenho o meu em fase de instrução e ser instruído é bom.